Esqueceu, pela décima vez no ano, as sapatilhas em casa. Ludmila Branco se lembrou delas já no ponto de ônibus, depois de três quadras de sua casa. Mais uma vez, pediria emprestado um par para a instrutora. Provavelmente o par estaria ensebado e maior, ou menor, que seu pé. É horrível dançar com sapatos alheios. Ludmila tem trinta anos, mas aparenta quinze, de tão baixinha e franzina. Mente todos os dias a sua idade para as novas colegas que aparecem nas aulas de balé. Ainda bem que muitas frequentam o lugar por pouco tempo e somem. A instrutora Judith não perdoa movimentos errados, posturas falhas, cabelos mal penteados e cara sem maquiagem. Mas empresta sapatilhas ensebadas. Isso nunca teve explicação para Ludmila. Quando chega ao estúdio de dança, uma casa estranha com antigas janelas de gelosia, já tem mais ou menos a roupa de bailarina vestida por baixo. É só encaixar a saia e calçar as sapatilhas, quase sempre alheias. No quarto de trocar de roupa, várias outras moças fazem o...
O improvável sorri com dentes de hiena. Bem-vindo(a).