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Mostrando postagens de dezembro, 2011

Guardados de Maria Eulália - relatos

As pessoas são todas iguais. Desejam as mesmas coisas. Se contorcem pelos mesmos motivos torpes. Merde! Mais um livro, mais uma bobagem escrita, mais uma vez um salto de paraquedas frustrado. Não raspei o creme de leite no final da taça da sobremesa e ficou comigo aquela vontade. Um 'não sei o que', um 'qualquer pessoa sabe'. E goteiras e mais goteiras sobre a minha cama. No outro livro que abro o cheiro de mofo me intoxica. Como o cheiro daquelas caixas que guardo embaixo da cama e sobre meus pensamentos de infância. A vida adulta não tem as cores da árvore de Natal, e isso me entristeceu depois da chegada de tantos e tantos anos novos. Foi tudo tão bom naquela tarde que bebemos suco de laranja e você parou de fumar. Depois daquele dia, minha vida tomou tantos rumos inesperados. Me apaixonei ainda pelo vendedor de vinis velhos que ficava no final da avenida. Tão culto, tão jovem, tão mais um qualquer. Dei meia volta. Pataquadas. De bolsa no ombro, mundo sobre os ombr...

Lonely day

Despetalei Seu perfume fosco No meio do meu deserto particular Esperei por horas A chegada do seu sonho Debulhada Desfez meus hábitos Hálito de areia me refez Entrelaçada na paisagem Me tornei freio diante do seu tato Desmanchei Cada espinho na folha de algodão Sabia da sua hora na aurora boreal Na despedida Embaraço Onde está o laço Que nos desfez.

É labirinto

Labirinto escuro de paredes enormes e lisas. Tateio fundo cada pedaço de cada centímetro esperando que a voz das minhas digitais chegue ao outro lado. Sinto que nada faz sentido em corredores eternos. Estradas inventadas. Pessoas desconhecidas. Esquinas premeditadas. Sonhos acordados. Língua morta. Ouvido vivo. Percalço que eu mesma faço em cada amanhecer. Dobro à direita. Dobro à esquerda. Tanto faz. É labirinto. Todos os dias são os mesmos. Todas as auroras têm o mesmo sabor de paetê descolorido de fantasias jogadas no lixo. A cada fim do dia o sol se vai como se fosse uma despedida para um voo sem volta. Sou garça sem graça de pernas finas e asas cortadas. Sem seu chá favorito de hortelã e nozes podres. É labirinto. Encostada em uma das eternas paredes sujas que viram ruas sem pausa. Traço planos. Imagino metas. Penso no que os outros fazem de interessante lá fora. Aqui a temperatura é sempre a mesma e ouço meus próprios passos como se fossem de outros. Se o outro chegar, confesso q...

Cenas desbotadas

Meus sonhos de algodão Minhas piscadelas passarão Como riachos desbotados Cena de cinema surdo Deixarão Pegadas rasas No solo manchado Dos seus antepassados Abobrinhas cortadas Cantada rala Omissão falha Cama desarrumada Esperas encurtadas Meus sonhos de algodão Passarão Doces em carrossel Traição rala Deixemos pois O vinho depois A névoa me chama Sonhos de algodão Passarão Em meu sono Cama desarrumada Esperas encurtadas Cenas desbotadas Como riachos surdos Passarão.

A partida do submarino

Aquele submarino que descia rapidamente levava minhas últimas lembranças. Cortaram as raízes antes das folhas. Cortaram meus membros antes dos gritos. E toda aquela tarde com cheiro de limão cortado e roupa passada criteriosamente se tornou lodo. Minhas glórias são imperdoáveis. Sei que os dados caíam sempre com os mesmos números em suas laterais milimetricamente medidas. Mas agora o submarino se foi. De todas as angústias de antes, me sobrou uma especialmente azeda, a do adeus que agora ganha gosto definitivo. De tantos gestos compassados que eu havia decorado um me fugiu da memória, aquele gesto de passar a mão ao longo do cabelo no assalto da dúvida. De tantas dívidas, todas ainda estão pendentes e cheirando a esgoto. Eu nunca soube afiar bem as facas. Era você que sabia antes de partir naquele submarino. Mas ficaram ainda desculpas afiadas que não foram ditas. Todas as outras se perderam no mar salobro. Aos poucos fui aprendendo que a vida não traz mensagens em ordem crescente. Q...