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Mostrando postagens de abril, 2011

Éramos

Amor Definir como Calor Derreti, fomos Sabor Suor, zeros Meros Acasos, laços Aperto Embaixo, tanto faz Espero Meses, consequência Quero Atenção, milagre Revolta, Volta Por favor Caso, descaso Ah, o amor...

Diário de um navegante

Ele perdeu o rumo da vida com todo o mau humor que um homem pode ter em uma tarde nublada de sexta-feira. Tinha a certeza que aquele final de semana seria um dos melhores de sua vida. Tinha certeza que a cruz pesada que carregava nas costas seria carcomida em segundos por quatro centenas de cupins, e que tudo se renovaria como tempo limpo de arco-íris depois de tormenta furiosa. Ao observar bem o horizonte repleto de gaivotas em alvoroço impertinente, percebeu que já não fazia mais parte daquele universo. Revoadas e alvoroços já não faziam mais parte de seu dicionário seco e mastigado de homem com rugas principiantes. O gosto salobro de últimas palavras ditas, malditas, não saía da superfície da língua. Estava cansado de corpo e alma. E dizem por aí que homens adoram enganar mulheres, mas e as mulheres? Elas não enganam? Elas não são mestres em colocar máscaras de sorrisos falsos e fingir prazeres que não existem? Mulheres são ardilosas e isso não parava de reverberar em sua ...

Banjo

Se eu quisesse voar Já o teria feito Sou anjo terráqueo Sou banjo lunático Tocando para meu amor A sétima aumentada A quinta diminuta Sustenida, suspensa No ar de suas narinas No pó das suas mãos No verdejar de esperanças Banjo desafinado Viola bastarda Vidrada, planando Anjo de orquestra Banjo de promessa.

Romance de pomar

Sua pele vermelha me convida Seu sabor único De abraço apertado Que espalha na boca Sua cor de puro rubi Te acolhi Antes que fosse tarde demais Antes dos besouros esfomeados Antes da tempestade Antes das mãos estranhas Que não te merecem Eu te quero Com este gosto de nada e tudo Com coroa e cara Ao ponto Ao meio-dia Aqui Em meio a folhagens cáquis Caqui.

Sinto muito, Carolina

Não há como negar como Carolina cresceu e está mais bonita. Não há como negar que agora, com seus 13 anos, ela sabe como andar como mulher madura com cabelos encaracolados ao vento. Quando passa batom rosa e coloca perfume que lembra jasmim, a menina-mulher fica impossível. Não há como negar que ela sabe o poder que tem, ainda meio insegura e insensata, de conquistar corações desavisados. Carolina não tem paqueras na escola, mas talvez algumas no bairro onde mora, mas na verdade é que Carolina sabe muito bem quem deve ser o dono do seu coração, um garoto cheio de espinhas e que gosta de samba-rock assim como ela. Carolina tem uma vida típica de adolescente, cheia de maquiagens, roupas, sandálias e seu inseparável diário rosa onde escreve com sua caneta de plumas na ponta, também rosa, as intempéries de uma garota em metamorfose constante. Carolina estuda de manhã, gosta da noite em fim de semana e desentende-se com sua mãe de quando em vez. Escuta música quase a tarde toda, no último ...

A matusquela da Tianoca

Na ponta dos pés, a pequena Tianoca se esticava inteira para ver pela janela o que se passava na casa da Dona Bentinha. Não que fosse curiosa, pobre da Tianoca, é que a vizinhança dava motivo. Pela janela lateral da velha casa desbotada, não conseguia ver nada. A janela até que não era alta, mas Tianoca tinha apenas nove anos. Depois de ouvir muitos gritos vindo da casa de Dona Bentinha, ela foi testemunha do tumulto formado na porta da casa da velha que só andava de saia comprida e lenço na cabeça. Mas minutos depois, o tumulto se transformou em meia dúzia de gente pingada. Tianoca, do alto de sua tenra infância, não se arriscou a perguntar a algum adulto o que tinha acontecido. A resposta era sempre a mesma, que criança não deve meter o bedelho em "certos assuntos". Tianoca, insistente matusquela, não arredou o pé da casa da Dona Bentinha. Descobrir o acontecido era o objetivo do dia daquela tarde de domingo sem graça em povoado de quinhentos habitantes. Por mais que se co...