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Mostrando postagens de janeiro, 2013

A última batalha

N. Nei andava em círculos pelo enorme pátio e não sabia mais se tinha feito a coisa certa. Foram muitas batalhas e escândalos até ali. Muitos obstáculos que ela não enfrentou. Simplesmente os desviou. Agora eles eram fantasmas enormes cheirando a mofo correndo atrás  dela com seus ecos assustadores. Conhecia muito bem todo o casarão. Todos os quartos. Todos os armários. O único lugar que lhe dava conforto era o enorme pátio redondo no centro da construção antiga, com um chafariz imenso de águas verdes. Arrastava-se como um réptil sedento ao redor da água barulhenta, que subia alto e despencava no pequeno mar cercado de concreto. N. Nei sabia, acima de tudo, que a próxima batalha seria sangrenta e talvez a última para ela. Impossível sobreviver. Os inimigos eram incontáveis e as armas eram desconhecidas. Seu arsenal minguava. Cada lua não trazia a resposta desejada. No pátio havia seis portais imensos. Cada um desembocava em um lugar distinto do casarão. N. Nei tinha conhecimento p...

Cometa

Um cometa imenso no céu Ela quer que ele cometa O delírio da aproximação Ela quer que ele repita As frases da noite anterior Ele quer que o cometa fuja das memórias Um cometa imenso no céu De estrada longa, subindo poeira Ela quer a cor do cometa Para que ele cometa todos os pecados Da porta larga Ele se porta como o cometa Linha reta Ela larga as esperanças Pela estrada imensa Desencontro no céu Em meio à poeira Viagem curta Do cometa.

Violeta, Julieta e Antonieta

Violeta ajeita os grampos nos cabelos com as janelas ainda fechadas. Era maio e os ventos poderiam ainda trazer algum resfriado. Era muito cedo. Violeta tinha muitas rugas ao redor dos olhos. Ela aparentava mais idade do que tinha. Mas também não era jovem. Muita história havia corrido em suas veias desde que nasceu. Era rígida. Não se casou. Com o tempo, ficou cada vez mais seca, amarga e limpa, feito chá ruim revigorante. Sempre calculada. Violeta desce as escadas e encontra as irmãs mais novas. Não nasceu bonita. Nasceu exigente e de olhos arregalados. Tinha a pele estranhamente acinzentada, como se a morte já a tivesse espreitado e engolido. Não tinha paciência com as irmãs. Elas eram três e nenhuma se casou. Moravam todas juntas, como um enorme saco de damascos secos e amassados pela viagem. Azedos e incorruptíveis. Julieta tinha os quadris largos e não suportava Violeta, a flor roxa do mau presságio. Era como uma mãe má, egoísta e sugadora de sorrisos. Quando Violeta passou ...

Eu sei

Eu sei qual é a melhor lua para pescar Eu sei Eu sei que na varanda ontem à noite Bateu aquele vento fresco que faz a gente confessar E sentir vergonha no dia seguinte E em todos os anos seguintes das nossas vidas Eu sei que a maré foi baixa e que o anzol entortou Era pesada demais a caça dessa vez Passou tanto tempo no relógio vermelho empoeirado Quando a lua foi embora no horizonte Já não havia mais folhas caídas das árvores Tudo secou, eu sei Eu senti vergonha no dia seguinte Quando o sol despontou todo laranja Pegando a gente de surpresa Na varanda sem brisa e envergonhada Guardo ainda o guardanapo Todo manchado de recado da despedida Pessoas vêm e vão na rua lá embaixo Ainda tem guardanapo rabiscado E um pouco de memória no fogão Eu sei qual lua é a melhor para os dias de colheita É aquela que faz a cicatriz mais profunda doer Mesmo depois de anos Anos e mais anos Guardanapo amarelado fora da estação.