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Mostrando postagens de julho, 2016

Despedida patética

Ajeitou a presilha no cabelo, colocou uma echarpe verde e saiu. O bar Amores ficava a poucos metros de seu apartamento. Caminhou calmamente pelas ruas, pois estava no horário certo. Entrou no bar, mas a amiga ainda não tinha chegado. Típico de quem se atrasa em todos os encontros. Não pediu nada ao garçom e ficou somente na espera. Quinze minutos se passaram; meia hora se passou. Nada da amiga viciada em atrasos. Ela havia marcado aquele encontro com ares de mistério, pois não queria dizer nada ao telefone. O bar Amores já estava bem cheio, e ela muito constrangida por estar sozinha, sem consumir nada. Alguns homens, de quando em vez, encaravam-na. Sozinha, ela erguia o pescoço e tentava ver pela vidraça se a amiga estava se aproximando. Acabou por ver outra amiga passando pela calçada. Ansiou para que ela entrasse. Mas o bar Amores não era o seu destino. Enquanto pensava em se levantar, um rapaz de olhos verdes e com ares de timidez, sentou-se em frente a ela. Com um olá rápido, diss...

Tarô e domingo

A aurora é cortada Pelos pássaros que madrugam Assim como A carta da temperança é cortada Pela carta da estrela Com sua caixa de pandora Cheia de esperança e males Não se deve mexer com o futuro Quando o presente é Somente Uma aurora cortada pelos pássaros que madrugam.

Flores amarelas - o mais lido do blog; publicado em 2014 no Relevo, jornal literário paranaense

Debruçados em meia parede de concreto, vemos lá embaixo flores amarelas como se fossem girassóis miúdos. Abelhas enormes as sobrevoam e, observando o pôr-do-sol no horizonte, falávamos de morte. A luz amarelada, acompanhada das flores vangoghianas, nos estalava vida diante de nossos narizes. Mas falávamos dos mortos. Lembrávamos dos mortos. Todos se vão sem levar um alfinete de suas gavetas. O sol nasce no dia seguinte a despeito dos mortos. Já é outono e tiramos aquela tarde para falar dos mortos, com o coração revirado e os olhos secos. Lembranças sem dramas. Porque não gostamos de chorar o inevitável. Na estação seguinte, as flores amarelas murcharão da noite para o dia. Parecem que são tocadas por forças malignas. Tornam-se galhos marrons retorcidos. As abelhas fogem. O verde à volta dos bambuzais dá adeus. As flores selvagens somem. Talvez apareçam meses depois. Mas durante a morte da estação, preferimos falar de vida, para compensar o calor morno das vísceras do sol. Os mortos pe...