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Mostrando postagens de outubro, 2011

Arcanos arcaicos

Imagino minha sorte dobrando a esquina com um belo ramalhete de rosas na mão. Imagino sempre minha virtude tomando café no bar da esquina. Imagino minha arte como piolho no bigode do gato. Caminho certo transitando plena. Imagino rodas da fortuna Virgens enfadadas Loucos corajosos Magos impertinentes Pisos quadriculados Lua em fases dementes. Imagino minha sorte dobrando a esquina no virar da lâmina. O diabo tocando flauta A morte ao lado da dama. O mundo começa e recomeça Começa e recomeça Começa e recomeça. Imagino, sim. Imagino meus vícios esperando do lado de fora do portão. Melhor assim. O sol queima A lua medita Primavera é água morna na consciência que imagino vagando só no meu jardim.

Enquanto os sinos não tocam

Na minha frente tenho um relógio enorme. Nas minhas costas roça uma lembrança imensa. Sentada espero o dia amanhecer. Ouvindo um vinil de décadas amassadas e fumando cigarro de quinta comprado na esquina. Passar horas lambendo a beirada da xícara de um chá amargo, daqueles que traz a realidade de volta. Sou fruto de esquizofrenias múltiplas. Sou fruta caída e esquecida. Caqui mole e rabugento. Até minhas doces pestes pularam para cima do vinil e dão voltas compassadas, fazendo caretas, esperando minha reprimenda. Bom esperar o dia amanhecer. Saber que quem assistiu às nossas vergonhas agora dorme, sem ação, sem lembranças, sem planejar de cordas no meu pescoço. Posso presenciar a vida em paz com meus defuntos interiores. Já fui coroada com flores nesta ciranda onde ninguém me deu suas mãos suadas e nojentas. Aqui trago a fumaça sem pressa. Imagino amores não vividos, com a permissão do bondoso destino. Aquele menino que sentava no banco encardido ao meu lado na sala de aula era o mais...

Com um golpe certeiro

Talvez seja assim talvez valha a pena a minha navalha cortando a sua carne tenra de véspera de feriado meu amor bailou na curva torpe ao som de uma orquestra qualquer saliva azul de minhas nuvens chorosas salina crua de minhas pedras amorosas sabatina pura por detrás de maçã podre saraivada de lua em dia de primavera rasgada cheia de abelhas, joaninhas ratos no meu miocárdio caraminholas necrosadas enterradas onde nascem outras, outras, outras e tantas outras caraminholas cinzas extintas de minha estirpe de minha tendência de salto agulha e furo na pálpebra de quem nunca mais adormecerá ao meu lado nunca em meus lençóis manchados nunca em minhas memórias pontiagudas nunca em meu travesseiro marrom encontrado no meio da rua. Nunca.

Escafandrista

Pés pesados caminhando nas ruas perdidas de labirintos aéreos. Nele há pedaços difíceis de serem juntados. Ele é fragmentado e irresistível. É único em cada pedaço sombrio de pés chumbados na realidade. Não é possível hoje mais uma desculpa e mais um escorregar pelo ralo da direita. Ele é o centro do meu mundo petrificado. As mesmas roupas revezadas. O mesmo sorriso enviesado. A mesma fala de mesmo tom mesmo quando o assunto inspira raiva ou indignação. Lobisomem e vampiro na mesma hora do dia. Anjo e criança irrequieta na mesma música orquestrada. Não sei se o que me atrai é a volatilidade ou a permanência do seu ser. Persigo seus pés de realidade desde que me mudei para essa cidade perdida no espaço. Também caminho com os pés pesados e eles doem como os descalços dos pagadores de promessa. Minha promessa eu ainda não paguei. Um dia entrei em uma igreja de um santo de nome diferente em uma outra cidade bem longe daqui. Na época eu tinha lido a placa com as explicações históricas da c...