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Mostrando postagens de 2019

Janeiro

Chega janeiro Com essa cor branca de festa Balões dourados E pedidos muitos Colocados às pressas pelo ano anterior Debaixo de uma árvore colorida Cores que piscam Que se desbotam em março Que não chegam a setembro Que não se reciclam para próximos janeiros Com essa cor branca de festa Com essa cor branca de susto.

Coisas bobas

Enquanto o sol aparecia no céu a duras penas, Margareth apressava o passo para chegar logo em casa e contar para sua vizinha sobre as promoções de fim de ano naquela loja de fachada amarela, tão bonita, na esquina da avenida principal. De fato, a loja era grande e com preços bons. Gostou tanto dos chinelos floridos e das blusas coloridas com aplicações de pedrinhas miúdas. Na hora, não comprou nada, mas voltaria preparada no dia seguinte. Virou uma esquina, mais duas, atravessou a faixa de pedestres e não via a hora de chegar em casa, tirar os sapatos, ligar a TV e esperar o filho vir da escola. Mas antes, falaria com a dona Telina. Imaginou os diálogos, como ressaltaria as promoções, como deixaria tudo tão interessante para que a viúva Telina animasse a ir para a rua, fazer umas comprinhas, de coisas bobas mesmo, para reavivar o dia e ter o que conversar depois, assim como faria Margareth, pensando em comprar suas coisas bobas também para ter o que falar para dona Telina. A vida preci...

Granizo

Uma nuvem grande, condensada Um mormaço suando, descontrolado Às duas da tarde, correria, guarda-chuva Tecidos vários, coloridos, aos pedaços Granizos, muitos, acumulados Sem dó e esfumaçantes Sobre os carros Sem aviso Leiam a Bíblia, o fim está próximo Profetiza o homem com apito no semáforo Na próxima, uma sombrinha colorida Rodopios, desafiando o espaço Mas nunca o tempo Esse senhor de todos os cansaços.

A máscara da girafa

Tinha os pés cansados como saídos de um atoleiro. A cabeça não comportava mais as ideias saltitantes. A mente agora pairava no ar. Queria descanso, conforto, comida, banho quente. Andar todos os dias entre um zilhão de gente. Gente distraída e desconfiada. Gente desgastada e indiferente. Gente que pipocava por todos os lados e feria como água quente. Um mundo inteiro a ser percorrido. Mas as ideias o cansavam. Daí, deletou todas, todas, todas. Tudo o que era novidade. Tudo o que cheirava a tinta fresca. Envergado pela derrota. Zerado. Cansara-se, como nunca antes. Sapatos furados já encharcados da chuva do dia anterior. A barba por fazer há meses. O odor de graxa que não saía das mãos. Mesmo depois de caminhar por dias e mais dias. As tardes ensolaradas não eram mais observadas. A vida perdia o vigor. O sol engolido por prédios enormes todo santo dia. Às vezes a bolota incandescente se resfriava na garoa e sumia feito fumaça magra atrás do arranha-céu. Observou tanto tempo a vida em si...

Um gato

De um lado para outro Rola o gato Cochilo Bigodinhos trêmulos Sonhando com aventura distante Minutos, horas Acorda com olhinhos ainda pesados Dois ou três miados Roça o gato Fome Linguinha ajeitando o pelo Querendo grãos de ração Testando a paciência do dono Volta ao cochilo Bigodinhos trêmulos Sete vidas felizes.

40

Me assusto quando me vejo No espelho Sei que tenho o corpo Caído Mas a alma Inteira Depois dos frangalhos Ajuntados Fico espantada Como encaro Frustrações Decepções E os brinquedos velozes do parque Nunca imaginei aos 40 Ser tão forte Tão cheia de cicatrizes Me vejo tão surpreendida Como se a alma estivesse ao lado Aplaudindo Da cicatriz maior, ainda trago lembranças Tatuaram por cima Beleza talvez Quarenta vividos Muitos Não só com dores E caminho Sempre E muito.

Sem magia

Coincidências me entristecem Porque vêm quase sempre com pés sujos de lama Revivendo, fuçando, forçando a porta Regurgitando reencontros Cogitando o impossível Querendo fama e olhos arregalados Odeio essas sincronias Tão assustadoras, afrontosas, extraterrenas Coincidências são cenas de novela Descabidas, arrogantes, displicentes Nada melhor que o diferente, que os disparates Em um mundo tão incrédulo, sem magia.

Chegada de inverno

Lá estava o senhor, sentando na varanda da casa de repouso, em uma velha cadeira, preocupado com duas toalhas pequenas que secavam na grade que cercava o espaço. Em um banco, mais à esquerda, outro senhor encolhido escutava bolero, vindo de um mini system das antigas. Eles congelavam na sombra, enquanto eu, visitante rápida do espaço, esquentava meu moletom vermelho, sentada em um banco de concreto no pátio, debaixo de um magro sol de junho. O senhor, de olho nas toalhas, tinha o braço esquerdo esquecido, pendurado no corpo. Arrastava a perna esquerda também ao andar. Metade do corpo paralisada o fazia se mexer em passos minúsculos para conferir se as toalhinhas estavam secas. Ajeitou a calça de tactel verde e se sentou. Puxou o braço esquerdo, com a mão direita, para frente da barriga e verificou as horas, devolvendo o braço para a posição caída, como se fosse de cera. Segundos depois, também conferi o meu, mas sem movimentos lentos. Eram três e trinta e cinco da tarde, dentro de um ...

O anel de pedra vermelha

Em suas andanças diárias, Urbano encontrou, abandonado no asfalto de uma rua sem saída, um anel com pedra vermelha. Parecia feito de ouro, mas a pedra não parecia rubi. A pedra era opaca, muito estranha, de uma cor escura que o tempo surrou. O dourado resplandecia. Fora descartado por gente importante, pensava Urbano. Mas que pessoa importante frequentaria um beco sem saída com casas tão pequenas? Era noite fechada, umas dez e meia. Olhou para as janelas da rua pequena. Uma ainda estava acesa, com uma lâmpada incandescente fraca. Era a casa da dona Iva, uma velhinha costureira. Devia estar remendando algo, sentada no sofá da sala, assistindo à ultima parte do capítulo da novela. Nas outras cinco casas, as janelas estavam um breu. Dez e meia da noite, em uma terça-feira, era hora de todos estarem dormindo para enfrentar a quarta-feira. Urbano não é desses. Vive de um trabalhinho aqui e outro ali. No mais, a vida é de andanças, catando uma coisa aqui e outra ali. Um anel de pedra vermel...

Ausência

Sonhei com você Com seus cabelos curtos grisalhos Perguntando da vida Da minha E eu sem a sua Você usava uma blusa cinza Na cozinha me perguntou Como vai a vida E depois na manhã seguinte Repassei sua gargalhada sonora Mais uma vez Na minha vida Sem a sua Saudade.

Picolés

Vamos lidar com as nossas distâncias Debaixo desse céu único anil Esses quilômetros maravilhosos entre um E outro Dispensando as farsas Como é bom quando o vendedor de picolés passa E minha dúvida é Tão e somente Entre a uva e a graviola Como é bom saber Das nuvens gigantes, dos quilômetros intermináveis Da ausência do seu jeito O picolé pingando, manchando a calçada Aquela nuvem parece nossa perfeita desunião.

Poeminha mal feito

Tão confuso tudo isso Que nem deu poema às pressas Nem pra começo ou fim De tão preparada conversa Essa sobra de expectativa Essa falta de promessa Começar a amar e logo depois Abandonar, abandonar Essa sobra de compromisso Essa falta de compressa.

I want it

Escolher palavras Entortar estradas Tomar cachaça Tomar decisão Escolher a rota Da fuga mais próxima Saber dizer Com cautela o não Entre fios e meios Começos e pesadelos Padeço um terço De tudo em vão Tratar de correr Da água parada Saliva armada Um tropeção Sair bem cedo Deletar a memória Deixar escorrer   Lágrima sólida Na palma Da sua mão.

As senhoras Lucy e Valentine

No bolso da saia da senhora Valentine há uma carta importante, que deve ser entregue ao destinatário até as cinco horas da tarde. Já são suas horas e o sol começa a se esconder atrás de nuvens pesadas e aguadas. Ela odeia missões assim. Entregar escritos lacrados em um envelope para destinatários misteriosos é o que ela faz toda semana para a sua patroa, a senhora Lucy. A senhora Lucy é casada há dezenove anos com o senhor Alberto. Parece ser um casamento sólido, sem filhos e sem atribulações. Eles se respeitam muito e toda noite jogam cartas sobre a mesa da sala de jantar, forrada com uma toalha de feltro verde, confeccionada especialmente para tal fim. A senhora Valentine é uma empregada de confiança. Trabalha há quinze anos para o casal, que mora na mesma rua desde que se casaram. A casa não é grande, mas é confortável, com uma sala que pode receber até três casais de visita. A senhora Valentine cuida muito bem de seus afazeres domésticos, mas crê que não sabe cozinhar muito bem....

Arruda

Tentando ser sincera Até a última página  E você me acertou em cheio  Com licor de amora com gosto de coisa Feita no quintal às pressas Como aqueles perfumes que eu fabricava De água com arruda dentro do vidro velho de remédio Memórias tantas afundadas  Em tanto concreto Na cidade nem quintais existem mais Trocamos a sinceridade por olhar a lua Calados, sem sorte, com a boca manchada de corante barato.

Ainda estou na casa dos Dalloway

  Ainda estou na casa de Mrs. Dalloway, observando a festa dada à sociedade inglesa. Ainda observo os vestidos das damas, escuto as conversas dos convidados e reparo que há flores vibrantes em uma cortina amarela que balança ao vento.    Virginia Woolf, escritora inglesa do início do séc. XX, famosa por seus romances Ao farol (1927) e Orlando (1928), traz consigo a capacidade única de nos tomar pela mão por uma grande viagem pelo tempo, pela mente questionadora de seus personagens, pelos ambientes típicos de uma época que não voltará mais, mostrando em cada obra um pouco, ou muito, dela mesma.    Em Mrs. Dalloway (1925), Virginia nos encanta pela doçura desconcertante de suas descrições sobre uma dama da sociedade inglesa, muito bem casada com Richard Dalloway, tendo uma filha adolescente, Elizabeth. Com o tempo da narrativa sendo marcado pelas badaladas do imponente Big Ben, Clarissa Dalloway nos transporta às suas memórias de adolescência, aos seus am...