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Mostrando postagens de 2022

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Mesmíssimo

  Ama-se o domingo de manhã O sol desbotado  O avental verde respingado  Um pouco queimado  Da rotina arrastada Ama-se o tempo repetitivo De cada mesmíssima coisa do primeiro dia Da semana  Domingo Ama-se  O cheiro do limão fresco A folhinha perdida no sábado O avental verde ainda queimado O tempo frio que pede o não fazer nada Ama-se.

Frestas

 O sol se parte nas frestas Da janela não aberta Gosto dos dias quentes Da luz amarela que insiste Pelos buracos, atalhos, imprevistos De repente, está tudo alaranjado Termina o dia E eu aqui pensando Ainda Nas frestas da janela Pelos buracos, atalhos, imprevistos.

Casa 5

 De quem foi A fachada Com três janelas Uma porta muda Venezianas descascadas Ao lado de um rio Só Com água barrenta E fétida Como a dos canais italianos De quem foi a casa 5 Hoje muda Amanhã ainda viva Diante dos motores Da contemporaneidade.

Cacos de ampulheta

  O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão. O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes. De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língua s...

Memórias olfativas

Vou afundar meus olhos em um pôr-do-sol estonteante e sair de lá só quando a montanha o engolir por inteiro. Já noite, arremessarei meu colar de pérolas arrebentado ao alto e torcer para que cada grão se torne estrela lilás como a lavanda. Com o universo aumentado,   sonharei laranjas de outono e travesseiros perfumados à lavanda Para por fim à tristeza de achar que vida é rotina, mesmice, lágrimas de mesmo gosto. Vou afundar meus olhos no espelho sincero de qualquer quarto e sair de lá só quando as labaredas já tiverem comprometido o telhado. Tentarei salvar meia dúzia de lembranças e deixar o resto para fantasmas sobreviventes. Com as mãos cheias do que não consegui levar chegarei à realidade de que a vida é baú pleno de mistérios que cheiram docemente à lavanda. Vou afundar meus olhos em um sol nascente e sair de lá só quando a montanha deixá-lo escapar por inteiro, como pássaro de gaiola e grito de garganta. A luz que sairá ...

Meio Kafka, meio G.H.

 Sonhei com uma barata aprisionada em uma caixa de vidro. Enorme, velha. A caixa ficava em cima de uma prateleira branca, na parede do último quarto do corredor da casa dos meus pais. Dentro da caixa também tinha um dente que havia sido meu. Estranho, transparente e com raízes enormes. A barata presa não se movia. E não sei o que comia. Dente? Curiosa, sacudi a caixa, e não sabia que ela tinha uma fresta. A barata saiu por ela e não correu como fazem as de sua espécie. Saiu pulando como uma pulga, um grilo. No momento, meu pai estava no quarto. Nem pensei em matá-la com meu sapato. Faria tudo de um jeito limpo e eficiente. Rapidamente peguei o inseticida de embalagem vermelha que estava no armário debaixo da pia do banheiro. Corri para o quarto e borrifei o veneno sobre sua carcaça marrom. Errei. Outra tentativa. Errei. O inseticida saia como água do spray. A cada erro, o carpete se encharcava, formando manchas enormes, escorrendo para todo lado. Na terceira borrifada, acertei. A b...

Um mistério de Conceição do Formoso

   Esta história, que diziam ser verdadeira, aconteceu em uma fazenda que ficava entre Santos Dumont e Conceição do Formoso. Quem a contava, o filho do dono da fazenda, repetia sempre a trama fantasmagórica com todos os detalhes. Punha medo em qualquer um que se lembrasse dela justo na hora de dormir.    A família que morava na casa era numerosa, reunindo-se todas as noites para contar histórias. Naquele tempo não tinha televisão nem internet. As pessoas passavam o tempo contando histórias de seu dia-a-dia, casos divertidos ou de assombração. Sentavam-se espalhados por todos os cantos da sala, inclusive sobre uma velha canastra, um tipo de baú bem grande. Esta história era a favorita deles. E era verdadeira!    Era assim. Depois da meia-noite, quando todos já estavam deitados para dormir, o mistério começava. Ouviam um arrastar de chinelos pelo chão, de alguém que vagava da sala para a cozinha e da cozinha para a sala. Na cozinha, a tal pessoa abria a...

"Para Mrs. Dalloway junho era novo"

    Ainda estou na casa de Mrs. Dalloway, observando a festa dada à sociedade inglesa. Ainda observo os vestidos das damas, escuto as conversas dos convidados e reparo que há flores vibrantes em uma cortina amarela que balança ao vento.     Virginia Woolf, escritora inglesa do início do séc. XX, famosa por seus romances  Ao farol  (1927) e  Orlando  (1928), traz consigo a capacidade única de nos tomar pela mão por uma grande viagem pelo tempo, pela mente questionadora de seus personagens, pelos ambientes típicos de uma época que não voltará mais, mostrando em cada obra um pouco, ou muito, dela mesma.     Em  Mrs. Dalloway  (1925), Virginia nos encanta pela doçura desconcertante de suas descrições sobre uma dama da sociedade inglesa, muito bem casada com Richard Dalloway, tendo uma filha adolescente, Elizabeth. Com o tempo da narrativa sendo marcado pelas badaladas do imponente Big Ben, Clarissa Dalloway nos transporta...

Sobre o depois

Sobre a grama  Não ainda os nossos pés Mas uma nuvem que rodopia cinza Desaguará às quatro da tarde Sem aviso prévio  Alastrar-se-á Cheiro de lama Fazendo curvas pelas árvores isoladas À beira de caminhos não abertos.

Acelerados

 Gota da árvore Escorre na folha Cai na praça Vira fumaça Entre pedestres Que não sabem Que o sereno Vampiro Corre da luz O verde ainda faz graça Nos nossos dias urbanos acelerados.

Ainda estou na casa dos Dalloway

    Ainda estou na casa de Mrs. Dalloway, observando a festa dada à sociedade inglesa. Ainda observo os vestidos das damas, escuto as conversas dos convidados e reparo que há flores vibrantes em uma cortina amarela que balança ao vento.     Virginia Woolf, escritora inglesa do início do séc. XX, famosa por seus romances  Ao farol  (1927) e  Orlando  (1928), traz consigo a capacidade única de nos tomar pela mão por uma grande viagem pelo tempo, pela mente questionadora de seus personagens, pelos ambientes típicos de uma época que não voltará mais, mostrando em cada obra um pouco, ou muito, dela mesma.     Em  Mrs. Dalloway  (1925), Virginia nos encanta pela doçura desconcertante de suas descrições sobre uma dama da sociedade inglesa, muito bem casada com Richard Dalloway, tendo uma filha adolescente, Elizabeth. Com o tempo da narrativa sendo marcado pelas badaladas do imponente Big Ben, Clarissa Dalloway nos transporta...

Confissões de Armênia

 Olho pelo buraco da fechadura. Porque não me chamaram para a conversa. Não posso ver bem através de um buraco tão empoeirado, mas é o que tenho no momento, depois de tantas adversidades vividas por aqui. As pessoas que observo não cabem bem na visão que tenho, quadrada embaixo e arredondada por cima. É uma fechadura de uma porta antiga, pois sendo moderna nem daria para investigar nada. Vejo que Armênia está chorando diante da mãe e que gesticula muito. Parece estar explicando algo que não está convencendo. Sei que Armênia está envolvida em um romance o qual a família não aprova. Já faz um tempo que a vi andando na rua com um rapaz de camisa azul e barba ruiva. Não o conheço. Muito menos o conhece a família de Armênia. Disse a ela para tomar cuidado. Mais com a própria família do que com o rapaz. Mas não me deu ouvidos. Ficou com raiva de mim. Rompemos contato. Armênia é filha única e muito mimada. Mas creio que agora a mãe já sabe de tudo. Elle s'est perdue. Atrás da fechadura, o...

Meia-luz

 Em cada meia-luz nascem Ideias conturbadas Diálogos perdidos Sonos apressados Mariposas impertinentes Lagartixas corajosas E a vontade forte de que A outra metade da luz Morra.

Várias rosas e um nome

  *este é um texto muito antigo que escrevi numa época bem diferente da de agora; achei, digamos, interessante rsrsrs Justo na hora em que mais estava atrasada, sempre passava um trem bem longo para azedar a sua paciência. Talita odiava chegar à esquina onde morava ao mesmo tempo daquele trambolho de mais de noventa vagões. O jeito era encarar a passarela toda suja e fétida, competindo os passos com dezenas de apressados pelas escadas e corredor estreitos. Mais um dia na faculdade, livros e mais livros pesando a mochila surrada, mais e mais tédio, já antecipado em sua cabeça, durante a aula de filosofia. Talita estava louca para terminar o curso e não via a hora de se libertar de resenhas, trabalhos em grupo, seminários, provas e etc. Durante a primeira aula estava a cair de sono em frente ao professor de terno de linho azul claro todo amarrotado. Não parava de imaginar uma vaca mascando a vestimenta do pobre em meio a um pasto verdejante. Os olhos pesavam e o pontei...