Em suas andanças diárias, Urbano encontrou, abandonado no asfalto de uma rua sem saída, um anel com pedra vermelha. Parecia feito de ouro, mas a pedra não parecia rubi. A pedra era opaca, muito estranha, de uma cor escura que o tempo surrou. O dourado resplandecia. Fora descartado por gente importante, pensava Urbano. Mas que pessoa importante frequentaria um beco sem saída com casas tão pequenas? Era noite fechada, umas dez e meia. Olhou para as janelas da rua pequena. Uma ainda estava acesa, com uma lâmpada incandescente fraca. Era a casa da dona Iva, uma velhinha costureira. Devia estar remendando algo, sentada no sofá da sala, assistindo à ultima parte do capítulo da novela. Nas outras cinco casas, as janelas estavam um breu. Dez e meia da noite, em uma terça-feira, era hora de todos estarem dormindo para enfrentar a quarta-feira. Urbano não é desses. Vive de um trabalhinho aqui e outro ali. No mais, a vida é de andanças, catando uma coisa aqui e outra ali. Um anel de pedra vermel...
O improvável sorri com dentes de hiena. Bem-vindo(a).