Entrei no ônibus de volta pra casa e lá estava Dora, com sua roupa discreta e cabelos curtos. A primeira vez que conversei com Dora foi há doze anos, no mesmo ônibus, voltando pra casa. Estava cansada e triste. Puxei conversa com ela para que a viagem passasse mais depressa. Uma pessoa comum, solteira, sem filhos e que vive para os sobrinhos. Discreta. Ou talvez com um medo imenso da vida. Gente que não se arrisca. Pobre de Dora, não quero julgá-la. Conversamos sobre o trivial. Sobre o tempo, calor ou chuva. Não me lembro de muita coisa. Memorizei o bairro onde ela mora. Memorizei ainda que sua vizinhança estava fazendo uma vaquinha para a construção de uma igreja, a Igreja de Santa Cruz. As contribuições eram pequenas, de centavos. Ninguém gostava de colaborar, os dias eram difíceis para todo mundo. Dora ficava por conta da arrecadação mensal. Simplesmente arrecadava. Não fazia mais nada. Não movimentava a coisa, com festa, prêmios, leilões, prendas ou barraquinhas. Não pensava em na...
O improvável sorri com dentes de hiena. Bem-vindo(a).