Ela ficaria sentada naquele sofá cor-de-bactéria por muito tempo. Assim estava decidido, sem pesares. Ficar sobre o sofá até os dias ficarem um pouco mais degustáveis. Sobre o sofá há espaço. Pode estar deitada, sentada, com pernas esticadas, pulando em pé sobre ele, assim mesmo, meio debiloide, meio esquecida, meio lembrada. Sob a luz daquele momento, prefere ser esquecida. Sobre o sofá magro não há impertinências, insalubridades, decepções, encontros malfadados, inquietações, ameaças de sol quente. Sobre o sofá ela pode flutuar como em um tapete mágico, dormir como em uma choupana acolhedora, acordar como em um conto de duendes saudáveis. Pode conversar à vontade com as paredes, tecer comentários íntimos, destroçar os desafetos, treinar a língua para as grandes declarações de amor futuras. Que nunca acontecerão. Quando pensa no futuro, sente aquela pontada. Dá aquela vontade de ranger os dentes e desbravar as matas. Desafiar os mundos e prometer mudanças. E praticar as mudanças. Mas ...
O improvável sorri com dentes de hiena. Bem-vindo(a).