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Mostrando postagens de abril, 2012

A ilha do sofá

Ela ficaria sentada naquele sofá cor-de-bactéria por muito tempo. Assim estava decidido, sem pesares. Ficar sobre o sofá até os dias ficarem um pouco mais degustáveis. Sobre o sofá há espaço. Pode estar deitada, sentada, com pernas esticadas, pulando em pé sobre ele, assim mesmo, meio debiloide, meio esquecida, meio lembrada. Sob a luz daquele momento, prefere ser esquecida. Sobre o sofá magro não há impertinências, insalubridades, decepções, encontros malfadados, inquietações, ameaças de sol quente. Sobre o sofá ela pode flutuar como em um tapete mágico, dormir como em uma choupana acolhedora, acordar como em um conto de duendes saudáveis. Pode conversar à vontade com as paredes, tecer comentários íntimos, destroçar os desafetos, treinar a língua para as grandes declarações de amor futuras. Que nunca acontecerão. Quando pensa no futuro, sente aquela pontada. Dá aquela vontade de ranger os dentes e desbravar as matas. Desafiar os mundos e prometer mudanças. E praticar as mudanças. Mas ...

Apenas um carnaval

Saguão Sagui Melão Pequi Saiam Daqui Confiando, desfiando Ensaiando Saias Saia Anágua Daqui Resta uma quentura No meu peito Aqui Desfiando memórias Pardas, análogas Amnésias Insônias Estilhaços das máscaras Daquele imenso baile Da colombina falsa Que derramou litros Lágrima e leite no asfalto Irreversível Jogando damas Lá do alto da minha estima Dentro do coração de caqui A semente pergunta Quantas saias Sais Máscaras Estilhaços e bombas Ainda restam por vir.

Emplastragem

Eu abri minhas veias Para te acolher Eu abri meu coração Para me obscurecer Eu abri minha mente Para estarrecer O pó que permanece No ar Na janela do outro lado Eu abri minha visão Pequenos pontos Grandes encontros Eu vi passar A quilômetros A ferro A fogo Vaidades de popeline Apertos em vitrines O tempo em cabides Eu abri minha boca Para a gota De euforia Que ainda havia Debaixo daquela névoa Sempre só eu fico Adivinhando minhas nervuras Sob este abajur Cor de pastel de vento.

Lágrima verde

Tudo era mais verde visto pela janela. Todas as vezes que alguém saía de casa, o espaço se agigantava e as flores respiravam. Não saiu aquele dia. Quis espiar o colorido do dia pelas horas intermináveis, transeuntes de uma rua só. Nada de músicas, de ler livros. Poeira, muita poeira, poeira por todos os lados e dentro de si mesma, com a vontade de se travestir de canção verde e sair por aí, sabendo que o mundo é composto de duas voltas. Campainha e nada de atendê-la. O dia é das horas, das poeiras, das lembranças confusas, dos livros embolorados, das falas engasgadas, dos fatos embolados, feito fita cassete que se desmantelou na hora errada. Ao olhar pelo olho mágico sempre tinha a sensação de que a pessoa do outro lado conseguia ver lá dentro. Era a chatice de sempre, batendo à porta, buscando abrigo, depois de muitas pisadelas em suas virtudes. Como é ruim atender gente sem noção do ferimento alheio. Caridade espeta. Abriu a porta. Lágrimas. Olhos cheios de sentimentos terríveis. P...

Papel de parede

Que café horrível. Qualquer bebida é horrível tomada naquele apartamento de papel de parede rosa morno. O café estava frio. E no meio da hora chega aquele pensamento que o relógio ganhou peso de chumbo nos ponteiros e que as horas não correm o quanto o coração aguenta. Noites de paetês e mazelas. De líquidos vermelhos amargos. O que fascinava era o azul da voz. A fumaça por todos os poros. O amanhecer incerto sobre mais uma ou menos uma página de caderno. Se um não procura, o outro não acha, e assim ela sempre caminhava empurrando o ponteiro do relógio para acelerar a agonia. Não queria mais ver o rosto da mesma pessoa em todos os pratos, copos, talheres, quadros e tapetes da casa. Pranto. Armadilha. Quanta mesma coisa em um dia só de agosto quente. Acelerada, anda rápido pelas ruas, foge, busca refúgio. Em pratos diferentes de ares modificados vê o mesmo rosto que não sai de dentro das veias. Teia. Difícil. Corre até sentir as pernas pesadas. Cansada imagina saída por portas fáceis,...

Sobre a rotina e os rótulos

Se passou e ninguém viu Passa Tudo passa E rápido Se passou e ninguém viu Esperou e ninguém sorriu Se tudo se desmantelou Bem pueril Esperar Tudo melhora Tudo entorta E fica certo no fim do verniz Se você berrou e ninguém ouviu Melhor assim Nada de se envolver Acordar Um dia e uma noite Somados para esquecer Somar meses Anos A vida Se tudo valeu ou não a pena E daí? Todo o dia é dia de pendurar mais e mais roupas no varal.

Caveira

A casa tinha três janelas de frente para a rua e uma cor insuportável quando a gente avistava de longe, lá da esquina. A última janela da esquerda sempre ficava com a luz acessa até altas horas da madrugada. Eu sempre imagino o que as pessoas fazem dentro das janelas iluminadas quando a noite chega com seu tédio interminável. Nada de novo debaixo do clarão milenar da lua morna de hoje. A janelinha brilhando num horizonte não muito distante. A luz amarela que não pisca e não acaba de uma hora para outra. Eu sempre perco a hora em que apagam a luz. Eu sempre perco a hora de manhã. A vida sempre me perde quando estou na janela debruçada sobre o nada. Porque é justamente nessa hora de nada e tudo que a vida não me vê de protagonista. Sou caveira já morta de curiosidade. Fizeram-me assim. Ajoelhei e aceitei o doce mel da vigilância alheia. Às vezes me pego pensando sobre como é a vida lá fora. Se existe mais alguém que observa luzes de janela. Se minhas janelas são observadas. Se a cor da f...