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Mostrando postagens de março, 2018

Meio Kafka, meio G.H.

Sonhei com uma barata aprisionada em uma caixa de vidro. Enorme, velha. A caixa ficava em cima de uma prateleira branca, na parede do último quarto do corredor da casa dos meus pais. Dentro da caixa também tinha um dente que havia sido meu. Estranho, transparente e com raízes enormes. A barata presa não se movia. E não sei o que comia. Dente? Curiosa, sacudi a caixa, e não sabia que ela tinha uma fresta. A barata saiu por ela e não correu como fazem as de sua espécie. Saiu pulando como uma pulga, um grilo. No momento, meu pai estava no quarto. Nem pensei em matá-la com meu sapato. Faria tudo de um jeito limpo e eficiente. Rapidamente peguei o inseticida de embalagem vermelha que estava no armário debaixo da pia do banheiro. Corri para o quarto e borrifei o veneno sobre sua carcaça marrom. Errei. Outra tentativa. Errei. O inseticida saia como água do spray. A cada erro, o carpete se encharcava, formando manchas enormes, escorrendo para todo lado. Na terceira borrifada, acertei. A barat...

Domingueiras

Debaixo do mormaço Da lâmpada amarela Todas as ideias Domingueiras desfalecem-se A semana massacra Os ideais em flor que por amor ou ódio Coragem ou despreparo Não vingam Decerto Debaixo do amarelo Das lâmpadas baratas Ou debaixo do amarelo De sóis se pondo Fotografáveis.

Seis ou sete mulheres

Balbúrdia Balbúrdia, Balbina! Menina de barbante brilhante de lata de goiabada no anel no dedo fingida de noiva noiva de barbante brilhante no olhar lábios borrados Balbina alva, linda boba, finda cortes no coração balbúrdia confusão beba, Balbina! Até o fim diamante brilhante anel de barbante que a chuva levou. Balbúrdia, Balbina! Alva, linda ioiô com barbante anel de menina. 1983 Jogou a bacia no chão Irritada No alumínio mais um arranhão Uma coleção acumulada em montanha-russa compassada Dentro de si cabem tantas E todas As que trabalham e recebem As que trabalham e não ganham nada As que batem a roupa na soleira do rio As que riem porque têm seus esmaltes intactos As que a esbarram e apontam caminhos Os caminhos que ela corta não a indicaram O sabão em barra acabou Ficou miudinho feito a tampa da gasosa Oferecida a ela em 13 de março de 1983 Caiu feito patinha Coitada da bacia Dentro dela cabem muitas e toda...

O mar sempre tem razão

Visto de cima o mar é uma grande placa azul que nunca erra. O mar sempre tem razão. Balançando na pequena barca, as certezas também balançam. Mas certezas são inabaláveis. Em seu vestido preto de corte duro pensa no mar e suas conclusões. As águas correm com força e sempre chegam. Não importa aonde ou como, mas sempre chegam. Chegar era o objetivo da pequena viuvinha em trajes sérios. Viúva de seu próprio passado morto. Ao redor, alguns olhares a espetam. A tarde demora a findar. O sol apareceu depois de quatro dias, retirando o cinza das águas frias. O destino ainda está longe. Requer muitas noites de sono. Pesadelos a atormentavam. O minúsculo navio era sempre atingido pelo inimigo e levava horas cruéis para adormecer na areia do fundo do oceano. Lentamente despedia-se do horizonte. Ela sempre desmaiava e acordava respirando debaixo d'água em outra cidade, cheia de flores e mulheres e homens ruivos que a ofereciam mais flores e casas para se hospedar. Falavam um idioma estranho, ...