Apoiado em sua antiga bengala, Ernesto pensava na solidão. O tempo varre os ciscos ao redor da idade, até deixá-la polida e invejável, mas nem por isso admirável. Porque, ao redor, todos se foram, varridos também pelo tempo. As ruas pareciam mais calmas quando Ernesto chegou à janela com os passos pequenos e não muito firmes. Andava somente dentro de casa, de cômodo em cômodo, de janela em janela, do jardim à sala, com muito esforço. Sua dedicação era para não ficar pior do que já estava. A solidão em quem não se move é algo que pesa muitas toneladas. Ernesto se equilibrava na bengala para vencer os dias. Marina o ajudava como podia. Fazia café, preparava alguma comida e limpava tudo uma vez por semana. Não tinha horário certo. Era quando podia. Tinha pena do velho Ernesto que ficou só em uma casa grande, depois que a esposa partira. Os filhos o visitavam uma vez por ano, sempre muito ocupados. Ernesto cada vez conversava menos. Gostava de admirar a rua, estando movimentada ou não. O...
O improvável sorri com dentes de hiena. Bem-vindo(a).