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Mostrando postagens de janeiro, 2014

O mal de Analice

Sentada na cadeira de uma sala vazia, Analice é o vício que se repete por não ter mais aonde ir. Foram-se todos. Todos em um dia de lua quarto crescente. Crescia em seu peito avencas enormes de dias abandonados. Avencas selvagens. Que nascem à toa e morrem em um dia sem testemunhas. Seus olhos estavam secos, como a boca e os órgãos do corpo inteiro. A porta bateu com força. Ela nem se moveu. Escutou passos em sua direção. Não olhou para trás. Não se interessou em quem poderia ser. Todos se foram em um dia de lua de quarto crescente. Estava só com os pés sobre o chão imundo e frio. Um cheiro de cigarro estacionou em suas narinas. Imaginou quem poderia ser. Cheiros sempre a apunhalavam o coração, abrindo arquivos emperrados de vinte anos ou mais. Cheiros eram deuses que desciam a terra, esfregando-lhe no nariz quadros com pinturas reconhecíveis. Pinturas aceitáveis de terra firme. Pinturas medonhas de mares impossíveis. Sentiu uma mão morna sobre seu ombro esquerdo. O tato não lhe trazi...

Depois do fim da tarde

Guardou todas as facas e cobriu a cabeça com o lençol. Medo de escutar outra vez o uivo misterioso do outro lado da rua, vindo de detrás de um enorme portão pintado de azul. Poderia ser um cão raivoso, decerto, mas o uivo tinha algo de humano, de dor, de desconsolo, de situação mal parida. Todos os dias esse medo lhe percorria a espinha e encontrava lugar em suas memórias do dia anterior. Uma pilha de memórias que se acumulava a cada dia, como papéis em uma repartição pública preguiçosa. Debaixo do lençol, imaginava como seria a criatura uivante, como seria sua pelagem e seus olhos. Assustadores os seus olhos debaixo do tecido de sua vergonhosa existência. Todos os dias tentava arrumar a casa e não conseguia. Todos os dias tentava comer regradamente e não conseguia. Todos os dias pensava no pior. Que o pior pudesse acontecer dali a poucos segundos. Que se ele não alinhasse todos os fios da faca na gaveta, o cão-humano uivaria sua pena, como a mais terrível do universo. Os uivos eram d...

Verão - presságio

Verão No calor das pedras As andorinhas que não se foram Nos buracos de seus ninhos Uma cidade inteira de carros E depressão Verão Todos os dias Folhas jovens e duras Lavadas em horas marcadas Perdidas, tão certas Esverdeadas Todos os dias Andorinhas Fazendo ninhos de impressão Pedras urbanas Testemunhas do tempo Que passou tão rápido Presságio Verão.