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Mostrando postagens de 2013

'Trecho III'

" (...) Os cabelos dela eram incríveis. Loiros e ondulados, reluzindo a luz do sol. Casca de carambola doce. Boca de lábios grossos que pediam atenção. Olhos pretos vívidos. Seu rosto pedia insistentemente uma puxada de cadeira e horas de conversa sobre o tudo ou sobre o nada. Porque vê-la falando e gesticulando com as mãos de dedos pontudos era um espetáculo mais atraente do que qualquer pôr-do-sol, do que qualquer barulho de cachoeira imensa, do que qualquer jogada fatal no fim do jogo de cartas. Corpulenta e açucarada. Perfumada de flor. Estava sozinha no balcão do bar pequeno na esquina da rua principal. De frente única azul e saia jeans um pouco acima do joelho. Seus joelhos eram morenos e redondos. Ele, de cabelos pretíssimos, sentiu que devia arriscar uma pergunta. Uma pergunta que servisse de ponte e a levasse para seu lago experiente, quase cinquentando. Quando o viu, grudou suas jabuticabas oculares nos olhos deles. Aproximou-se e perguntou o nome dela. Angélica. Combin...

Imaginário

Certo que era raro Pavão alaranjado Com grito de mata Perdida Por entre as folhas De um novo deserto Imaginário Com força que arranca Plantas de um vaso só Aproximam-se garças À luz do sol O pavão quer sossego Asas longas Bicadas suaves Que arranquem suas lágrimas.

Sapatos molhados

Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Acendeu um cigarro. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucur...

Cacos de ampulheta - breve texto sobre calos, decisões e memórias

O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão. O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes. De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língua só la...

Rosa e cinza

Mudança de ar Clima rarefeito A rosa se contorceu no mar de rosas E depois do último salto Caiu na caçamba para nunca mais Trepidou no latão Contorcendo-se por quatro esquinas Ainda perfumada, caiu na terra Pele avermelhada Sangrando Resignada Juntou-se a outras tantas Muitas Sentindo o calor aproximar-se Arderam mansas Todas Fumaça rosa Incensando Mar de cinzas.

O mar sempre tem razão

Visto de cima o mar é uma grande placa azul que nunca erra. O mar sempre tem razão. Balançando na pequena barca, as certezas também balançam. Mas certezas são inabaláveis. Em seu vestido preto de corte duro pensa no mar e suas conclusões. As águas correm com força e sempre chegam. Não importa aonde ou como, mas sempre chegam. Chegar era o objetivo da pequena viuvinha em trajes sérios. Viúva de seu próprio passado morto. Ao redor, alguns olhares a espetam. A tarde demora a findar. O sol apareceu depois de quatro dias, retirando o cinza das águas frias. O destino ainda está longe. Requer muitas noites de sono. Pesadelos a atormentavam. O minúsculo navio era sempre atingido pelo inimigo e levava horas cruéis para adormecer na areia do fundo do oceano. Lentamente despedia-se do horizonte. Ela sempre desmaiava e acordava respirando debaixo d'água em outra cidade, cheia de flores e mulheres e homens ruivos que a ofereciam mais flores e casas para se hospedar. Falavam um idioma estranho, ...

Gaiola pequena

Bateu a porta e bateu em retirada feito cão raivoso. Ao sair sentiu um nó na traqueia de quem não via o mundo lá fora há muito tempo. A claridade o tonteou. Fora do prumo. Caminhando e varrendo a calçada irregular com as solas dos pés. O mundo do lado de fora é uma gaiola gigante, cheia de gente que acha estar livre e feliz. Ele esqueceu os óculos, mas as pessoas eram transeuntes vivas, apressadas, coloridas, rarefeitas, falantes. Não falava há dias. Ouvia muito e não falava. Não falava porque ninguém o entendia. Foi ficando derretido aos poucos, como neve no anúncio da primavera. Murcho. Escutando. Até que naquele dia ensolarado e quente de quinta-feira de manhã resolveu dar um basta. Calado, bateu a porta. Mudo, saiu percorrendo a calçada irregular com nó de gravata desajustada na goela. Ele não era culpado. Era simples de ideias, mas ninguém as ouvia. E quando resolviam ouvir o pobre enforcado nas angústias, ninguém compreendia. O mundo é uma gaiola imensa cheirando a gás carbônico...

Lua nova

Querida lua nova Seu rosto está triste e eu sei A luz se foi Não abruptamente O seu sorriso, sim Foi pelo mar de estrelas Uma a uma na imensidão Até tocar a ponta do meu sorriso Perdido Lua velha De cortinas fechadas Trarei cigarras Para embalar seu sono Durante a madrugada Amanhã outra vez Lua nova Lua velha.

La última batalla

Nora Nei andaba dando vueltas por el inmenso patio y no sabía si había hecho lo correcto. Hubo muchas batallas y escándalos, muchos obstáculos que ella no enfrentó. Simplemente los evitó. Eran fantasmas oliendo a moho, corriendo detrás de ella con sus terribles voces. Conocía bien toda la casa grande, todas sus habitaciones, todos sus armarios. El único lugar que le daba paz era el inmenso patio en el centro de la construcción antigua, con una fuente con aguas verdes. Caminaba sedienta como un réptil alrededor del agua ruidosa, que subía y caía sobre el pequeño mar, dentro del concreto. Nora Nei sabía, sobre todo, que la próxima batalla sería sangrienta y tal vez la última. Imposible sobrevivir, los enemigos eran incontables y las armas eran desconocidas. Cada luna no le traía la respuesta deseada. En el patio había seis puertas inmensas. Cada una daba a un lugar distinto de la casa grande. Nora Nei tenía gran conocimiento sobre el mapa. Podría andar con los ojos cerrados sobre él...

Os rios trotam

Era de se esperar que o dia nublado trouxesse a lembrança daquele rio barrento que vira muitas curvas até chegar à pequena casa de janelas rosadas. Duas janelas pequeninas, mas bem cuidadas, com cortininhas azuis com pequenas flores. Uma casinha a sós no fim do rio que se desmilinguia até ser fio fraco de água transparente. A saia verde surrada e os óculos grossos sempre observavam o que poderia haver dentro de uma morada tão minúscula. Era certo que vivia gente. O fogão de lenha soltava um cheiro que viajava depois das águas, depois do pasto. Uma pessoa morava ali, com certeza. A senhora de lenço xadrez que puxava da perna. Parecia ser boa pessoa. Parecia, somente. E a confiança não se estendia por tropeçar em dias sórdidos de modernidade. Os rios trotam com patas d'água. Vento forte que revirava a saia verde, debaixo para cima, na sinfonia do ar morno. Depois das janelas mínimas e das cortinas coloridas, imaginava poucos móveis e pouca comida sobre a mesa. No varal, somente peça...

A quien le gusta

Caminho com meus olhos pesados De bicicleta sobre um rio caudaloso Cometa de água barrenta Com fel na superfície Língua azinhavrada Arranhada na mesma canção do vinil Que repete como as maracanãs Tô fraco, tô fraco, tô fraco Cruzando os céus que refletem o curso pardo do rio triste Presa a um espelho eterno Que flutua entre as bicicletas Correm, correm, correm à margem, sobre e dentro Coração colado Todo sangrento Com fel na superfície Repete feito os lobos-guarás que ainda confiam em humanos Parte robô que sobrevive Parte roubada que sobrevive Cruzando Angolas, Moçambiques e afins Tô fraco, tô fraco, tô fraco Sobrevivente do grito da gralha azul que tinha razão Há meia hora atrás.

Ancoragem

Eu despetalo Os traços que trago No último cigarro Tantas vozes no quarto Pressionadas contra a parede Últimos ideais no nó Do marinheiro com dó e nó No peito Na despedida do cais A sós Com as pétalas tragadas Enfileiradas no gargalo Trago um fiasco Ao longo do dia Ouço recados Das vozes que temem o mar.

O salto do guepardo

Quitéria se despertou com o sol batendo nos lábios rachados e secos. O coração aos saltos a pôs de pé. O casal pedinte acordara antes. Estava fraca. Buscou as moedas no bolso e entrou na primeira padaria que viu. O dinheiro deu apenas para comprar um pão. Enquanto o mastigava a seco teve a certeza da cruel necessidade: voltar ao apartamento e não dormir mais uma noite sequer na rua. Era o único caminho. Não conhecia ninguém na metrópole. Era de fora. E fazer amizade duradoura e confiável da noite para o dia não seria possível. Depois do pão solitário, pediu copo de água de torneira, e tomou a calçada. O sol escaldante fazia apontar gotas e mais gotas na testa de Quitéria. Fez o caminho de volta do pouco que se lembrava da noite anterior, mas ao chegar ao cruzamento de quatro ruas mais adiante teve que engolir a timidez e perguntar pelo boteco de sinuca de pano sujo. Quem atendia era a dona Idalina. Depois de muitas perguntas para quem a deu atenção, já que muitos nem olharam para os s...

Mostra de Tuiteratura

Frases poéticas com limite de 140 caracteres, postadas em meu perfil no twitter @muniquealvim, e que fizeram parte da Mostra de Tuiteratura, realizada em São Paulo, em 2013. Seja bem-vindo/a à tuitosfera! -Entre o surto e o susto, apenas um tropeço do alfabeto. -Do alto do sapato rosa-choque joga as cinzas do cigarro no chão. Em seu coração de manteiga vencida já não cabe mais ninguém. -Todos diziam para ela amadurecer. Amadureceu tanto que seus lábios já acinzentados não contavam mais histórias. -Quando o tempo e as amoreiras não estão a favor, tudo apodrece em data esquecida. -Olho por olho. Sobre os dentes, deixemos aos vampiros. -Choverá da cor do lenço dela, e ele tomará o café dos castanhos de seu cabelo. -Mas o bom mesmo foi imaginar que ela seria água eterna do meu aquário. -Sempre imagino a sorte dobrando a esquina com um belo ramalhete de rosas na mão. -Eu não peço fardos leves. Eu peço ombros fortes. -Na minha frente tenho um relógi...

Inverno

Eu prometi cheirar o jasmim Espalhado, todo lilás Bem lá no meio do jardim Quando há névoa Orvalho congelado Ele sempre sorri para mim Com um ar misterioso Exalando perfume inquieto Roxo De longe eu prometi De novo, um dia Cheirar o jasmim Com minha xícara apertada entre os dedos Creio que ele está triste Folhas, muitas folhas Inibido entre todas As terras do jardim Calou-se o jasmim Agora é a sua estação Que jasmim na contramão! Apareça, era tão certo Ainda espero por você Ainda é tão escuro Ainda é inverno.

Observações de Becken sobre as lágrimas amarelas

As lágrimas dela eram amarelas. Isso mesmo. Um amarelo transparente, desmaiado, nada compacto. Não era paracetamol. Eram lágrimas levemente amareladas. Não eram comuns, da cor d'água, escorrendo pelo rosto e engolindo a poeira da pele. Eu sei que ela havia lavado o rosto há pouco tempo. Porque já havia chorado muito antes e trazia os globos oculares plenos de veias finas vermelhas. Chorava sempre escondida. Eu achava que era vergonha de menina que não deseja ser vista em mais um de seus inúmeros momentos de fraqueza. Na verdade, ela tinha era medo. Muito medo toda vez que entrava no pranto compulsivo com caretas de teatro grego. Até babava de tanto drama. Ela demonstrava receio de alguém descobrir que sua lágrima era amarela. E eu sempre imagino se tem gosto de abacaxi, ou de paracetamol. Mas não é amarelo-vivo, que nem o sol, o açafrão ou o ouro. Ela não gotejava ouro. Era tola demais para isso. Mas que é um mistério, isso não podemos negar. Não foi reflexo ou jogo de luz. Não foi...

Ora, Honória

Ora, Honória Arraste o seu vestido lilás Por entre as esperanças esverdeadas Por entre as folhas amareladas do ano Por entre as portas brancas com cupins da casa grande Ora, Honória Agora o chá esfriou no fundo da xícara Nem todo o calor é para sempre Nem mesmo o calor do coração de um amigo Nem mesmo o calor da fogueira que arde hoje Ora, Honória Perdendo a hora por entre os jasmins e as hortelãs Perdendo a pose com o vestido amarrotado Perdendo a roda das amigas perfumadas Ora, Honória Acabou. Acabou. Recolha-se em seu travesseiro com penas de amora. Adormeça. Amanhã é dia de chuva. A fogueira de hoje arderá em sua espera.

Tolice de marinheiro

Agarrei-me aos cabelos castanhos da vida Pedi-lhe mais sorrisos Mais cores fortes Chás revigorantes que me arranquem o medo Olhei fundo em seus olhos d'água As minhas dores rolaram serenas juntando-se ao oceano Guardei alguns fios de sua cabeleira para a sorte de mais tarde Tocá-la em carne e osso Nos cabelos brancos escondidos há memórias Lágrimas mornas Sorrisos ecoando tão longe Implorei-lhe para quebrar a garrafa com o papelucho dentro Segredos meus e dos marinheiros Tolices de um diamante com cicatrizes Apagando as pegadas em dia quente de areia O vento pregava peças em cortinas imensas Baixei minha voz até ser burburinho de multidão esgotada Da vida não peço o grande tesouro Da vida eu peço a liberdade do mar.

Sonho nevado

Era difícil manter os pacotes de farinha todos empilhados na última prateleira. Para quem tem baixa estatura, o mundo é uma escada longa e malvada. Cada degrau sujo de farinha ainda deveria ser limpado naquela tarde pela Dona Flanézia, que apesar das inúmeras vassouradas diárias não emagrecia um pontinho na balança. Beliscava os casadinhos do confeiteiro todos os dias. Tarefa escondidinha. Delícia. Tirar farinha grudada no cimento não era mole não. Toda tarde era o momento mágico de cheirar recheio doce de sonho e sonhar com as aparas dos biscoitos recém-assados. O saco de farinha despencou hoje da última prateleira. Estourou e tudo ficou brancamente fantasmagórico. Para quem é de baixa estatura, a vida é uma aventura everestiana. Pó branco para todo o lado. Tristeza de ver ingrediente desperdiçado. Tristeza de imaginar o patrão xingando. Tristeza de presenciar Dona Flanézia com pá e vassoura, com cara de cachorro brabo. Dia de azar enfarinhado este. O confeiteiro faltou pela gripe in...

'Trecho II'

(...) Com as mãos congeladas, Soraia esfrega os olhos negros e arregalados. Precisa verificar se as janelas do apartamento estão abertas ou não. Indícios de presença humana. O sol forte de quase meio-dia a atrapalha. Abre e fecha os olhos com força para varrer os excessos de dúvida. As persianas a confundem. Depois de quase cinco minutos, Soraia tinha a certeza das janelas fechadas. Sem notar, atravessava a rua em direção à entrada do prédio, mas seu cérebro dava o aviso do engano. Ele podia estar em casa com todas as janelas fechadas. O que era raro. A necessidade do dinheiro a fez apertar o passo. Subiu cinco lances de escada. A cada degrau, um gosto estranho lhe subia pela garganta. Um gosto de água suja, um pouco amarga. O estômago deu reviravoltas ao lembrar dos olhos negros do guepardo. Buscou as chaves em um dos bolsos da saia longa surrada. A que abria a porta do apartamento já estava separada entre os dedos de unhas curtas, enterradas na própria carne. Pálida, Soraia senti...

'Trecho I'

(...) Ela se despediu dele com um sorriso magro de estátua. Ele a ajudou a arrastar a amiga até o táxi. Prometeram um ao outro um novo encontro, naquele mesmo lugar. Elas se foram e ele ficou pensativo. O vestido azul medonho o atordoou. Mas o corpo dela, reto e limpo, emoldurado por cabelos finos castanhos, o aprisionou. Voltara ao apartamento pequeno e alugado cheio de observações e medidas. Ficaria assim até o próximo encontro, matutando, como era de costume. Matutava sobre tudo o que via ou ouvia. Gastava sinapses cerebrais até chegar a lugar algum. Não mudava de hábito há quarenta anos. As sinapses estavam desbotadas como lençóis velhos no varal.O segundo encontro aconteceu em menos de uma semana. A amiga bebedora de copos infernais não era mais sua companhia de festas. Naquele dia recusara-se a pagar o táxi. Nunca mais se falaram. Agora ela não usava vestido medonho. Estava de calça jeans e blusa verde com um broche de pássaro dourado. Os cabelos lindos e perfumados. Estava simp...

Anésia

Anésia tinha culpas no coração Queria paz milagrosa Era difícil na solidão Sozinho ninguém puxa o carro Sozinha desencatava Com sentimento murcho Anésia se sentia Cada dia pior Anésia comprou Leite de magnésia Definhava agora com hora certa Olhava a lua com olhos fundos Espírito embaraçado Sem ninguém ao lado Bordava panos imensos Ao vento Anésia acordou um dia muito estranha Seca na boca E na boca do estômago Estranha somente Amnésia repentina Amnésia Anésia agora Dormiria em paz.

Goiabeira

A goiabeira se esticou Inteira Perdeu as estribeiras Chorou Chuva das goiabas Cada uma no chão Galhos pontudos Dedos certeiros Em direção ao céu Goiabeira quer mel Felicidade de flor pequena Alva e iluminada Alvo branco noturno A goiabeira se esmerou Dia após dia Mas perdia cor Pedia luz E ela se foi Goiabeira apaixonada Chorou Agora é lua nova, disseram Goiabeira impaciente Encolheu-se.

Pintassilgo

Bateu a porta e se foi. Chapéu na mão e ideias definidas. Franzino e decidido. Daria muitas voltas ainda. Sentiria falta dos perfumes de mexericas, da cama arrumada e do pão amassado de pouco. Ela, toda pequena e de olhos arregalados, não saía de perto do fogão à lenha. Cabelos enfumaçados e vestido amarelo com barra preta de tanto passar a mão de cinzas. Feito um passarinho frágil, viu o José Fulgêncio, o Pintassilgo, bater a porta. Um suspiro subiu do estômago e espetou o coraçãozinho. Mas não o deixou escapar pelas narinas. Era nova para ter suspiros. Deveria só aspirar o pó da lenha cozida. Orelhas em pé, como gato-do-mato. Ouvia todos dizerem que Pintassilgo era muito arrogante. Queria sempre as coisas do seu jeito. Ninguém poderia contrariá-lo. Diziam todos com seus chapéus ensebados, pitos acessos e gestos com mãos sujas. Mariinha, toda borboleta, não estava nem aí para nenhum deles. Feios e sujos. Escutava as conversas todas sem nem ter copo de vidro grudado na parede. Ninguém ...

A máscara da girafa

Tinha os pés cansados como saídos de um atoleiro. A cabeça não comportava mais as ideias saltitantes. A mente agora pairava no ar. Queria descanso, conforto, comida, banho quente. Andar todos os dias entre um zilhão de gente. Gente distraída e desconfiada. Gente desgastada e indiferente. Gente que pipocava por todos os lados e feria como água quente. Um mundo inteiro a ser percorrido. Mas as ideias o cansavam. Daí, deletou todas, todas, todas. Tudo o que era novidade. Tudo o que cheirava a tinta fresca. Envergado pela derrota. Zerado. Cansara-se, como nunca antes. Sapatos furados já encharcados da chuva do dia anterior. A barba por fazer há meses. O odor de graxa que não saía das mãos. Mesmo depois de caminhar por dias e mais dias. As tardes ensolaradas não eram mais observadas. A vida perdia o vigor. O sol engolido por prédios enormes todo santo dia. Às vezes a bolota incandescente se resfriava na garoa e sumia feito fumaça magra atrás do arranha-céu. Observou tanto tempo a vida em si...

Ela, a mais linda entre as estrelas

Ele esticou o braço o máximo que podia. Para entregar a rosa daquele dia. A eleita era perfeita. Toda vestida de prateado. Trazia o ventre enorme, bem redondo. Não estava assim nos últimos dias. Mostrava uma parte murcha, um lado desconsolado. Depois de dois ou três amanheceres, ela surgiu à noite toda divina. Cheia de si. Cheia de sabedoria. Plena de certeza que era a mais bonita. Mesmo entre tantas estrelas. A rosa cheirava o perfume do mais lindo jardim da terra. Branquinha. Suavezinha. Ele estava na ponta dos pés. Mãos ao alto. Rosa ao alto. Ela esboçava um olhinho triste. Impossível ter a rosa. Impossível o encontro das pequeninas mãos. Foram dormir com lágrimas nos cantos dos olhos. Mas sonharam um com outro. Juntos, bailando entre as estrelas. Rodopiando entre os cometas. Ela, cheia de si. Ele, cheio de rosas. Uma mais perfeita que a outra. O sonho durou até o amanhecer. *texto dedicado a Iolanda e Jonas.

Outono

Outono Outra estação Dias mornos Dias açucarados Ventos dobrados Cortam folhas Chá de hortelã Calmaria no mar E na esquina E no coração Trovão Foi-se com a chuva Terra seca com flores Chá de amores Amoras Maçãs Outras folhas Outra canção Outono Mais uma vez Outra estação.

A torre de Netuno

Largou os sapatos na soleira da porta e caminhou com os pés descalços. Frio cortante do chão. Era o momento de deixar as lembranças também na soleira e cair na cama até o dia seguinte. Mas antes, era preciso conferir o conteúdo da caixa de sapatos, sempre depositada secretamente debaixo da cama. Tudo estava em ordem. Todos os embrulhos pequenos hermeticamente fechados com voltas inúmeras em fio de barbante encardido. Contava todos os embrulhos todos os dias. Quinze ao todo. Há meses não desembrulhava nenhum deles. Enquanto observava os pacotes, passava a mão no lóbulo da orelha direita. Crosta de sangue e pus que latejava. O dia anterior trouxe sol e ventos mornos. Também uma pontada no tórax que reverberou por toda a semana. Quando a noite chegou com cheiro doce de árvore velha, já estava esgotada. O dia, de fato, fora uma ruína, uma torre destruída pelo raio poderoso de Netuno. Promessas e mais promessas foram proferidas diante do espelho. Nunca mais seria o que era, nunca mais usar...

Violeta, Julieta, Antonieta e Marieta

Violeta ajeita os grampos nos cabelos com as janelas ainda fechadas. Era maio e os ventos poderiam ainda trazer algum resfriado. Era muito cedo. Violeta tinha muitas rugas ao redor dos olhos. Ela aparentava mais idade do que tinha. Muita história havia corrido em suas veias desde que nasceu. Era rígida. Não se casou. Com o tempo, ficou cada vez mais seca, amarga e limpa, feito chá ruim revigorante. Sempre calculada. Violeta desce as escadas e encontra as irmãs mais novas. Não nasceu bonita. Nasceu exigente e de olhos arregalados. Tinha a pele estranhamente acinzentada, como se a morte já a tivesse espreitado e engolido. Não tinha paciência com as irmãs. Elas eram três e nenhuma se casou. Moravam todas juntas, como um enorme saco de damascos secos e amassados pela viagem. Azedos e incorruptíveis. Julieta tinha os quadris largos e não suportava Violeta, a flor roxa do mau presságio. Era como uma mãe má, egoísta e sugadora de sorrisos. Quando Violeta passou dois anos nos Países Bai...

Ódio, ora chumbo, ora algodão

Era dada a lua A ela Que se transfigurava Ora chumbo, ora algodão Por horas Pela terra Ora chuva, ora sol Alaranjada Era dada a chance A ela De mudar de cor De roupa a cada estação No estalo da trombeta Ela se foi Bem no meio da dança de salão Não cuidou das tias Não cuidou do pomar No azedume do maracujá Lembro-me dela Tão azul Ora algodão, ora nuvem Distante Foi dada A ela A visita ao beco onde dormira Na noite anterior.

Cachoeira do mantra

Caminhos tortuosos em meio a quase escuridão. Depois de vários erros e acertos chegaram ao campo de apicultura. Não seria interessante passar a noite ali. Mas voltar seria um trabalho imenso. A noite apontou antes do esperado e eles foram pegos de surpresa. Deveriam ainda percorrer muitos quilômetros até desembocar na casa velha da cachoeira. O tempo foi mal calculado. A areia da ampulheta escorregou rala. Estavam agora entre zumbidos de abelhas, que não dormem, nem conversam. Com as mochilas ainda intactas, pensam em acampar ou não. Tirando a clareira cheia de caixas de abelhas doces e furiosas, o resto era só estrada sem pouso, com mato empoeirado sem aconchego. Há uma hora atrás, eles haviam avistado uma pequena casa com chaminé ativa. Mas como estavam longe do destino, esticaram o passo. Agora o labirinto desembocava em uma clareira perigosa e desconfortável. Os ventos da noite de lua minguada sopravam baixo, com hálito gelado. Sem muitos agasalhos, não podiam pensar por tanto tem...

Fio da navalha - o último pão

No fio da navalha Cortou o último pão Dividiu entre os cães E os rostos vigilantes Pendurados na parede Tirou da sacola Uma armadura potente Vestimenta da noite Quando as pinturas adormecem As grades das janelas cercam Chão com farelos Céu estrelado Perfeito No fio da navalha Afia os pensamentos Fatia os dias Galões de adrenalina Garganta destilada É a navalha que dita Bote da serpente No fio da navalha Corta o último pão Traços riscados nas paredes As pinturas avisarão A hora do risco certeiro.

A última batalha

N. Nei andava em círculos pelo enorme pátio e não sabia mais se tinha feito a coisa certa. Foram muitas batalhas e escândalos até ali. Muitos obstáculos que ela não enfrentou. Simplesmente os desviou. Agora eles eram fantasmas enormes cheirando a mofo correndo atrás  dela com seus ecos assustadores. Conhecia muito bem todo o casarão. Todos os quartos. Todos os armários. O único lugar que lhe dava conforto era o enorme pátio redondo no centro da construção antiga, com um chafariz imenso de águas verdes. Arrastava-se como um réptil sedento ao redor da água barulhenta, que subia alto e despencava no pequeno mar cercado de concreto. N. Nei sabia, acima de tudo, que a próxima batalha seria sangrenta e talvez a última para ela. Impossível sobreviver. Os inimigos eram incontáveis e as armas eram desconhecidas. Seu arsenal minguava. Cada lua não trazia a resposta desejada. No pátio havia seis portais imensos. Cada um desembocava em um lugar distinto do casarão. N. Nei tinha conhecimento p...

Cometa

Um cometa imenso no céu Ela quer que ele cometa O delírio da aproximação Ela quer que ele repita As frases da noite anterior Ele quer que o cometa fuja das memórias Um cometa imenso no céu De estrada longa, subindo poeira Ela quer a cor do cometa Para que ele cometa todos os pecados Da porta larga Ele se porta como o cometa Linha reta Ela larga as esperanças Pela estrada imensa Desencontro no céu Em meio à poeira Viagem curta Do cometa.

Violeta, Julieta e Antonieta

Violeta ajeita os grampos nos cabelos com as janelas ainda fechadas. Era maio e os ventos poderiam ainda trazer algum resfriado. Era muito cedo. Violeta tinha muitas rugas ao redor dos olhos. Ela aparentava mais idade do que tinha. Mas também não era jovem. Muita história havia corrido em suas veias desde que nasceu. Era rígida. Não se casou. Com o tempo, ficou cada vez mais seca, amarga e limpa, feito chá ruim revigorante. Sempre calculada. Violeta desce as escadas e encontra as irmãs mais novas. Não nasceu bonita. Nasceu exigente e de olhos arregalados. Tinha a pele estranhamente acinzentada, como se a morte já a tivesse espreitado e engolido. Não tinha paciência com as irmãs. Elas eram três e nenhuma se casou. Moravam todas juntas, como um enorme saco de damascos secos e amassados pela viagem. Azedos e incorruptíveis. Julieta tinha os quadris largos e não suportava Violeta, a flor roxa do mau presságio. Era como uma mãe má, egoísta e sugadora de sorrisos. Quando Violeta passou ...

Eu sei

Eu sei qual é a melhor lua para pescar Eu sei Eu sei que na varanda ontem à noite Bateu aquele vento fresco que faz a gente confessar E sentir vergonha no dia seguinte E em todos os anos seguintes das nossas vidas Eu sei que a maré foi baixa e que o anzol entortou Era pesada demais a caça dessa vez Passou tanto tempo no relógio vermelho empoeirado Quando a lua foi embora no horizonte Já não havia mais folhas caídas das árvores Tudo secou, eu sei Eu senti vergonha no dia seguinte Quando o sol despontou todo laranja Pegando a gente de surpresa Na varanda sem brisa e envergonhada Guardo ainda o guardanapo Todo manchado de recado da despedida Pessoas vêm e vão na rua lá embaixo Ainda tem guardanapo rabiscado E um pouco de memória no fogão Eu sei qual lua é a melhor para os dias de colheita É aquela que faz a cicatriz mais profunda doer Mesmo depois de anos Anos e mais anos Guardanapo amarelado fora da estação.