(...) Com as mãos congeladas, Soraia esfrega os olhos negros e arregalados. Precisa verificar se as janelas do apartamento estão abertas ou não. Indícios de presença humana. O sol forte de quase meio-dia a atrapalha. Abre e fecha os olhos com força para varrer os excessos de dúvida. As persianas a confundem. Depois de quase cinco minutos, Soraia tinha a certeza das janelas fechadas. Sem notar, atravessava a rua em direção à entrada do prédio, mas seu cérebro dava o aviso do engano. Ele podia estar em casa com todas as janelas fechadas. O que era raro. A necessidade do dinheiro a fez apertar o passo. Subiu cinco lances de escada. A cada degrau, um gosto estranho lhe subia pela garganta. Um gosto de água suja, um pouco amarga. O estômago deu reviravoltas ao lembrar dos olhos negros do guepardo. Buscou as chaves em um dos bolsos da saia longa surrada. A que abria a porta do apartamento já estava separada entre os dedos de unhas curtas, enterradas na própria carne. Pálida, Soraia senti...
O improvável sorri com dentes de hiena. Bem-vindo(a).