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Mostrando postagens de maio, 2013

'Trecho II'

(...) Com as mãos congeladas, Soraia esfrega os olhos negros e arregalados. Precisa verificar se as janelas do apartamento estão abertas ou não. Indícios de presença humana. O sol forte de quase meio-dia a atrapalha. Abre e fecha os olhos com força para varrer os excessos de dúvida. As persianas a confundem. Depois de quase cinco minutos, Soraia tinha a certeza das janelas fechadas. Sem notar, atravessava a rua em direção à entrada do prédio, mas seu cérebro dava o aviso do engano. Ele podia estar em casa com todas as janelas fechadas. O que era raro. A necessidade do dinheiro a fez apertar o passo. Subiu cinco lances de escada. A cada degrau, um gosto estranho lhe subia pela garganta. Um gosto de água suja, um pouco amarga. O estômago deu reviravoltas ao lembrar dos olhos negros do guepardo. Buscou as chaves em um dos bolsos da saia longa surrada. A que abria a porta do apartamento já estava separada entre os dedos de unhas curtas, enterradas na própria carne. Pálida, Soraia senti...

'Trecho I'

(...) Ela se despediu dele com um sorriso magro de estátua. Ele a ajudou a arrastar a amiga até o táxi. Prometeram um ao outro um novo encontro, naquele mesmo lugar. Elas se foram e ele ficou pensativo. O vestido azul medonho o atordoou. Mas o corpo dela, reto e limpo, emoldurado por cabelos finos castanhos, o aprisionou. Voltara ao apartamento pequeno e alugado cheio de observações e medidas. Ficaria assim até o próximo encontro, matutando, como era de costume. Matutava sobre tudo o que via ou ouvia. Gastava sinapses cerebrais até chegar a lugar algum. Não mudava de hábito há quarenta anos. As sinapses estavam desbotadas como lençóis velhos no varal.O segundo encontro aconteceu em menos de uma semana. A amiga bebedora de copos infernais não era mais sua companhia de festas. Naquele dia recusara-se a pagar o táxi. Nunca mais se falaram. Agora ela não usava vestido medonho. Estava de calça jeans e blusa verde com um broche de pássaro dourado. Os cabelos lindos e perfumados. Estava simp...

Anésia

Anésia tinha culpas no coração Queria paz milagrosa Era difícil na solidão Sozinho ninguém puxa o carro Sozinha desencatava Com sentimento murcho Anésia se sentia Cada dia pior Anésia comprou Leite de magnésia Definhava agora com hora certa Olhava a lua com olhos fundos Espírito embaraçado Sem ninguém ao lado Bordava panos imensos Ao vento Anésia acordou um dia muito estranha Seca na boca E na boca do estômago Estranha somente Amnésia repentina Amnésia Anésia agora Dormiria em paz.