Adélia se prepara para mais um ano vindouro. Na verdade, não há muita preparação. Na virada do ano, não usará roupas brancas, da sorte, ou roupas amarelas, do dinheiro. Provavelmente, estará em casa, com os chinelos velhos de sempre. Nada de uvas ou lentilhas. Nem pulará sete ondas, porque mora a quilômetros do mar. Adélia não é ligada a simpatias. Não é de crendices populares. A passagem do ano é uma folha de calendário que vira. Neste ano que termina, Adélia conclui que sua vida não saiu muito do lugar. Dos propósitos estabelecidos, ela não cumpriu nenhum. Continua fumando cigarros vendidos nas embalagens de cor azul brilhante. Não fez nenhum curso importante, porque diplomas na parede estão fora de moda e dentro das gavetas ocupam espaço. Não trabalhou em um restaurante chinês, lavando pratos. Aliás, ela nem entrou lá para ver se tinha emprego disponível. Não teve grana para jantar lá nenhuma vez as suas sopas com legumes boiando, seus brotos sem gosto e seus pequenos pedaços de ...
O improvável sorri com dentes de hiena. Bem-vindo(a).