Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de março, 2016

Chá de abeto

Caminhar na neve não é fácil. Dias curtos pedem passos acelerados. Mas, com os pés pesados, ninguém consegue. Os contornos da estrada já haviam desaparecido e a caminhada seria longa até chegar à casa do Sr. Minot. Que trabalho deveria ser feito para que ele chamasse o pobre homem caminhante com tanta urgência? Com passos cada vez mais lentos, ele respira ofegantemente. Bolas de fumaça sobem no ar. Apenas os abetos como testemunha. Ao dobrar uma pequena curva, uma pequena casa surge, com telhados brancos de gelo e uma janela entreaberta. Uma fumaça incessante saía pela chaminé cilíndrica e estreita. Há vida em um ambiente quente.  O homem acelera a caminhada e observa, ainda de longe, pela fresta da janela, que a casa é simples, contendo o necessário para se viver em um lugar como aquele. Apesar de que viver ali talvez seja apena um ato passageiro, de nem uma estação completa. A cozinha tinha um fogão, que parecia ser muito eficiente, com um grande forno, que parecia não estar sen...

A torre de Netuno

Largou os sapatos na soleira da porta e caminhou com os pés descalços. Frio cortante do chão. Era o momento de deixar as lembranças também na soleira e cair na cama até o dia seguinte. Mas antes, era preciso conferir o conteúdo da caixa de sapatos, sempre depositada secretamente debaixo da cama. Tudo estava em ordem. Todos os embrulhos pequenos hermeticamente fechados com voltas inúmeras em fio de barbante encardido. Contava todos os embrulhos todos os dias. Quinze ao todo. Há meses não desembrulhava nenhum deles. Enquanto observava os pacotes, passava a mão no lóbulo da orelha direita. Crosta de sangue e pus que latejava. O dia anterior trouxe sol e ventos mornos. Também uma pontada no tórax que reverberou por toda a semana. Quando a noite chegou com cheiro doce de árvore velha, já estava esgotada. O dia, de fato, fora uma ruína, uma torre destruída pelo raio poderoso de Netuno. Promessas e mais promessas foram proferidas diante do espelho. Nunca mais seria o que era, nunca mais usar...

Março

No horizonte havia um rasgo Amarelo na imensidão cinza Outono que se calava  Chuva doce que caía Com cheiro de mate Marrom Para que mate a saudade Que ficou no reflexo De uma pétala caída Feito algodão Cinza O tempo é maldito Amarela memórias Ressalta despedidas Cinza na imensidão amarela Outono que se calava Tempestade que se repetia.  Poema publicado neste blog em 22/03/2014