A casa tinha três janelas de frente para a rua e uma cor insuportável quando avistada de longe, lá da esquina. A última janela da esquerda sempre ficava com a luz acessa até altas horas. Eu sempre imagino o que as pessoas fazem dentro das janelas iluminadas quando a noite chega, com seu tédio interminável. Nada de novo debaixo do clarão milenar da lua morna de hoje. A janelinha brilhando, num horizonte não muito distante. A luz amarela que não pisca e não acaba de uma hora para outra. Eu sempre perco a hora em que apagam a luz. Eu sempre perco a hora de manhã. A vida sempre me perde quando estou na janela debruçada sobre o nada. Porque é justamente nessa hora de nada e tudo que a vida não me vê. Sou caveira já morta de curiosidade. Às vezes me pego pensando sobre como é a vida lá fora. Se existe mais alguém que observa luzes de janela. Se minhas janelas são observadas. Se a cor da fachada da minha casa também é insuportável. Se alguém também repara quantas roupas eu coloco no vara...
O improvável sorri com dentes de hiena. Bem-vindo(a).