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Postagens

Mostrando postagens de março, 2015

Cinco minutos

Laudi é uma chata e sempre insiste em me acompanhar pelas ruas quando estou voltado para casa, depois de uma caminhada pelo parque. Faço de tudo para que não me veja, mas seus olhos de lince são únicos. Têm visão de raio-x. Laudi não tem noção nenhuma do correr do tempo. Eu sim, pois uso relógio de pulso desde os oito anos de idade. Primeiro, usei um digital porque era mais fácil. Depois ganhei um com algarismos arábicos, com o qual custei me acostumar. Logo em seguida, exigi um com algarismos romanos. Ninguém sabe algarismos romanos hoje em dia. É como se o relógio marcasse as horas em códigos. Gosto de saber o que quase ninguém entende. Laudi não sai de casa sequer com o celular. Uma vez a perguntei sobre onde ficava o Parque das Castanheiras. Ela me indicou as ruas e disse que eram vinte minutos de caminhada até chegar lá. A indicação das ruas estava correta, mas levei cinquenta minutos para avistar a primeira árvore do parque. Aquilo me irritou profundamente e meu ódio por Laudi cr...

Calçada mundana e sua falta de definição

Há dias que são intermináveis para ela que anda dormindo tão mal. Não são problemas que atravessam o caminho. São dias que parecem estar meio do avesso. Hoje ouviu a campainha tocar duas vezes. Debruçou-se na janela e viu que não era ninguém. Durante o banho, o telefone tocara, mas não conseguiu identificar a chamada perdida. Porque não havia chamada. Havia cansaço e delírio. Passou o dia outra vez sem conversar com ninguém porque temia contrariedades sobre o que andava fazendo. Mas ela não andava fazendo quase nada. Apenas esperava. Um retorno, uma música favorita na rádio, uma fruta que não apodrecesse tão depressa, uma meia que não sumisse na gaveta, um pássaro que cantasse na janela, uma chuva forte repentina, o conserto mágico de seu guarda-chuva predileto. Até a leitura final do seu livro de cabeceira. O livro era bom, mas dormia depois das duas primeiras páginas. Se o livro era bom, como conseguia dormir? Onde estava a magia dos olhos abertos e atentos sobre personagens, tramas ...

Sentimentos portáteis

Não foi assim tão fácil Colocar nossos sentimentos portáteis Em um salão tão vasto Decorado Com leques e ameixeiras Não identificamos a cor das paredes Puxamos a cadeira Sentamos no meio do ar que gelava, vindo do lado de fora A cada lufada Um descanso na alma Entre almofadas vermelhas novas Éramos só nós E nossos sentimentos portáteis Não identificamos as paisagens dos quadros Estávamos perdidos Exatamente onde queríamos A chuva caiu às cinco da tarde.

Carla...

Jânio saiu para comprar um liquidificador em uma manhã quente de sábado de fevereiro. Quando entrou na loja, veio uma vendedora morena, muito bonita, dizendo-lhe bom dia. De cara percebeu que ela tinha um piercing no dente. Pequenininho e brilhante. Coisa de moças modernas. Devia ter uns 25 anos, no muito. A calça jeans clara, grudada no corpo, dava à mostra um traseiro redondo e empinado. Tinha seios grandes também. A observação de Jânio parou por aí porque tinha que responder o bom dia e perguntar pelo liquidificador. O mais em conta da loja, se fosse possível. Ela sorriu dizendo que traria um da promoção. Virou-se de costas e Jânio a observou mais. Para ele, não tinha esse negócio de “podia ser minha filha”. Mulher bonita era para ser olhada mesmo. Ainda mais com uma calça daquelas colada no corpo. Num corpo de pele morena. Cabelos pretos lisos, com uma franjinha caindo no olhar de ressaca da sexta-feira. Ela explicava sobre a forma de pagamento do liquidificador equilibrando o chi...