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Mostrando postagens de março, 2011

Um abismo por vez

Grito seco no emaranhado de sonhos Gesto obscuro no desfazer da madrugada Desejo insano no vazio do horizonte Ancorado no tanto fez e no tanto faz Disfarçado de maio Encoberto de junho Arregalando os olhos ao ver que o último setembro não volta mais que caimos em abismo somente uma vez, um abismo por vez A sombra engolirá feriados santos Penas de ganso Não abafarão gritos de anos passados De 50 chegados Rugas estaladas Arrependimentos breves, breves... Glórias aos tempos idos Misérias aos tempos chegados.

Duo

A vida e suas circunstâncias Eterno conflito combinado As circunstâncias bailam em ciranda A vida, estacada, sustenta o todo Circunstâncias não são seguras Mas são elas que fazem história Vida é sempre água de mesma direção Circunstâncias provocam ventos cruzados Vida e circunstâncias não se dão as mãos Caminham muito próximas Competindo o próximo bote Entre a vida e as circunstâncias Prefiro a primeira As circustâncias nem sempre me satisfazem Mas a vida, confesso, às vezes, me aborrece.

Dissonante

Desencontro Desalinho Demorei Divaguei Perdi o fio da meada O tom da piada O argueiro do teu olho Pisoteada Malhada Cansada Saí de fininho De dentro do teu ouvido Calada Desqualificada Ludibriada Corri para meu abrigo Viaduto Reduto Conduto Sem conduta Lamúrias auditivas Esperneio Acalento A atenção de meio mundo E do outro inteiro.

Jogo de damas

Era noite na meia luz do abajur. Alice não pensava nem no ontem, nem no amanhã. Era o agora que a capturava em arapuca certeira. Com o indicador, empurrava para frente e para trás uma peça escura do tabuleiro de damas. O adversário nunca completava a jogada. O refrigerante cola sobre a mesa de centro estava morno e as batatas fritas geladas. Os ponteiros passeavam no tic-tac barulhento e Alice nem notava a infindável fileira de carros que passava dia e noite em sua rua. Buzinaço constante. Ansiedade citadina. Movendo as peças do tabuleiro, sentia-se fria, só, carcomida pelas horas, pelo medo. Sua vida era previsível e confortável demais. Livros e discos são boas companhias, mas não retrucam, não brindam, não espirram, não dizem boa noite. A lâmpada do abajur piscou, e Alice no sobressalto acendeu o interruptor e desligou a luminária. Naquela noite se sentia estranha. Tinha a sensação volta e meia de um coração apertado, mas não era angústia. Era um pressen...

Aquarela imaginária

Em meio a um  céu acinzentado Levo uma aquarela brilhante Sei que a pintura me será negada Mas enganarei o porteiro Com minha fantasia de fada Toda bordada e drapejada Começarei descolorindo tudo Depois colocarei pontos luminosos Para dar charme Colocarei vermelho-chama Chamarei gaivotas para a estampa Minha paleta é vasta E minha visão nefasta Pedirá ausência Para correr os pincéis Em tons fortes Não me contento com pastéis Quero luz, força, vida Quero a obra coroada em cavalete Óleo de linhaça E minha visão devassa Pedirá ausência Findado, organizarei tudo em alforje Olharei crítica bem de longe Deitada na minha rede Meu ponto de fuga.

No divã de papel com Anabel

23 de setembro de 1985 Tenho um arsenal de máscaras e armas de veneno letal. Já caminhei para inúmeros lugares, viajei sem mochila nas costas, sem destino nas mãos, sem ideias na cabeça. Quase sempre não me agrada a maioria das pessoas que encontro pelo caminho e troco de planos como quem troca de roupa. Foco meu objetivos sempre em três ou quatro projetos ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo que tenho sono, tenho vontade de gritar e quebrar a casa inteira. Amo e fico enjoada de quem mais amo. Faço e repito a mesma coisa até ter certeza que a fonte está esgotada. Persigo pessoas, planejo assassinatos, reinvento minha alma várias vezes ao dia. Sempre que passo na frente de um espelho olho até saírem lágrimas, até comprovar que meu sofrer é duradouro. O reflexo no espelho a cada hora é de um jeito. No espelho sou só olheiras, só cansaço, só desesperança. Odiei todos ontem que cruzaram meu caminho e desejei a morte de mim mesma. Cuspi no chão feito gente antiga e cuspi para cima feito gen...

Cemitério provisório

Enterrou todas as fitas cor-de-rosa Enterrou as agulhas de tricô Enterrou bem fundo meia dúzia de retratos E também seu pequeno perfume favorito Não esqueceria a aliança de ouro Tampouco seu lenço, presente da avó Enterrou todos os retalhos da última costura Todos os alfinetes de cabeça dourada O relógio sueco tão fino Duas fronhas bordadas Quatro livros de cabeceira Duas sandálias importadas Enterrou mais e mais lembranças De décadas vividas Mais e mais artigos, propósitos Encerrou com algumas lágrimas pingadas Tapou com a terra, vigor em pazadas Tudo fundo, fundo, muito fundo Para depois poder se lembrar de tudo Os soldados já estavam chegando.

Viajor mequetrefe

Com as mãos Afasto as nuvens Pesadas Deslumbro faces Sem corpos Que não me interessam Tento pouso alí mesmo Jogada em vento macio Oferecem cálice de neblina Nada me satisfaz Permanecerei pouco Estrelas como lanternas Não afastarei mais as nuvens Nimbos, cúmulos de absurdos Tenho as mãos ocupadas Desabotoando meus versos.

Janete

Cabelos curtíssimos cortados ontem. Janete adora ser sempre diferente, inovadora, sagaz... Gosta de pensar em coisas que os outros nunca pensaram. Gosta de aparecer em festas que não foi convidada. Janete ama forçar uma amizade, dizer inconveniências ou maledicências. Toma um porre às vezes para se sentir leve e continuar afirmando inconveniências ou maledicências. Nervosa, inquieta, ultrapassa sinal e canta o guarda de trânsito. Assovia e esquece de depilar o buço quando tem vontade. Mora em um apartamento cheio de réplicas de Juan Miró. Uma vez alguém opinou que os quadros de Miró pareciam desenhos de seu sobrinho de cinco anos. Decorou a casa toda de reproduções do pintor, um desagravo, um desacato, uma destemida essa Janete. Quando criança colocaram sobrenome na coitadinha: Janete Canivete. Antes Canivete que Pinto, ela pensava. Ninguém nunca soube de seu verdadeiro sobrenome. Janete era alta e usava roupas muito sensuais. Se achava linda no espelho com seu top de oncinha. Mas fa...

Arco em mechas

Arco-íris Sabor de calda de morango Arco-íris Seda cara, rara, turca Arco-íris Cheiro de alvejado, limpo Arco-íris Tapete do céu Estrada de sonhos Tiara do tempo Fraterno, inspira Arco-íris O ouro reluz em seu final Arco-da-velha Faz-me rica Com tuas sete cores.

Telefone esquizofrênico

Estava acomodada debaixo dos cobertores e era quase uma hora da madrugada. Depois de fazer as orações de praxe, o telefone tocou. Coração na goela de tanto susto. No painel de chamadas um número estranho, era só 000000000.... Muito estranho mesmo, mas decidiu atender. Do outro lado, uma voz abafada, aguda, incompreensível. Falava palavras repetidas. Às vezes a voz ficava longe, às vezes próxima, às vezes cortadas por outras vozes. Parecia alguém falando do fundo de um aquário, com água. Sem querer compreender, desligou o telefone e voltou para a cama. Sem nem ao menos tirar o último pé do chão, o telefone reclamou mais uma vez. Voltou para verificar a chamada. Os mesmos zeros. Não era possível! Tinha vontade de desligar o telefone na tomada, mas ao mesmo tempo saber o que se passava. Ela nunca havia escutado do outro lado da linha uma voz tão esquisita, abafada, com alardes de socorro, de linha cruzada, de engano vindo de outro planeta. Não conseguiu entender nada desta vez. Tentou ch...

Morfologia botânica

Ela contou no chão 307 folhas caídas da laranjeira. Depois de contar a última, já não tinha certeza do número total e uma pontada lhe afetou o coração. Lembrou-se do último bem-me-quer e mal-me-quer, de bênçãos e maldições vividas desde o dia em que tinha nascido. Folhas de verde fulgurante, tão verdes para terem caído em pleno verão. As folhas inúteis caíram, mas a laranjeira continuou frondosa, milagre da multiplicação do reino vegetal. Linda laranjeira que não é vaidosa e mesmo perdendo folhas continua mirando o céu límpido de verão, aborrecido de quando em vez por horas de tempestade. Tempestade no coração de quem conta folhas mortas. Próxima tempestade que varrerá folhas para qualquer esconderijo da terra, que apodrecerão na terra. Destino marcado de folhas paridas e mortas, resignadas. Não varrerá as folhas na tarde de hoje. Não adianta varrer hoje o que amanhã estará do mesmo modo. Sobre as 307 contadas neste dia acrescentará as mais de 120 do dia de amanhã. Deixará todas se am...

84° domingo comum

Oh, Cristo pregado na cruz De lá para cá as coisas não mudaram muito A labareda sobe A enxurrada desce As formigas não caem das paredes Os olhares continuam disfarçados E as traições ainda vogam Há pessoas sórdidas Há pessoas sãs Há zumbis que vagam, cheios de sacolas de compras Mas as casas de pedra continuam firmes E comemos todos os dias para matar a fome O que eu queria mesmo Era pescar na beira da praia De horizonte azul e bege E esperar a tua chegada Com solas dos pés em água firme.

Útero

- Se você bater a porta de novo, sua cadela desgraçada, não me chame mais de tia. Criei você como se fosse saída do meu útero, sempre seco sem esperança. Achei que dando vida a você, te criando depois da morte da sua mãe, a vida resplandeceria para nós três, sua mãe, você e eu. Mas tudo não se resumiu assim, como em histórias perfeitas e redondas de contos de fadas. Sua ingratidão já desfilou muito pelos cômodos desta casa. Quer saber? Não quero mais ver a sua cara de safada dissimulada. Não foi por falta de aviso. Não foi por falta de conversa. Eu sempre educada e moderada. Você sempre perversa, louca, exagerada. Você pode arrumar suas coisas. Faça uma trouxa com o lençol porque minha mala você não leva. E não esquece de colocar no embrulho de pano aquele cachorro que você comprou, para eu criar, claro, que gane a noite toda feito uma peste desenfreada. Quero ver você se virar sozinha com seu salário de garçonete, porque a esta altura do campeonato nem seu namorado deve te suportar ma...

Querido,

Ontem você não veio Bem no meio da noite Sem fazer barulho Sem fazer alarde ou serenata Olhei para a janela Mas seu hálito de terra molhada De jardim com névoa Não chegou ao meu rosto Sua elegância não abrilhantou Minha escuridão proposital Aqui neste lugar Ninguém te entenderá Quem te espera? Somente eu! Para fazer a cortês companhia A você meu querido Que não é só palidez e dentes afiados Ao seu lado fico a noite inteira Escutando histórias da Transilvânia.

Maça do amor (diário de uma apaixonada)

No dia 1° você me encontrou no parque, perguntou qual era o meu nome e pagou para mim uma maça do amor coberta de confeitos coloridos. Só comi a parte caramelada e me apaixonei perdidamente por você. Fomos tão felizes, fizemos tantos passeios, foram tantos beijos e outras coisinhas mais... Mas, no dia 15 você apareceu estranho. Veio com um papo que eu merecia coisa melhor, que suas declarações de amor não corresponderam à realidade e que você me queria como amiga. No dia 16 nem consegui levantar da cama de tanta dor de cabeça, coração partido e mal estar de estômago. Dor de amor é doida, pior que picada de zangão. Não há gelo ou rodela de cebola que cure. No dia 18 minha melhor amiga veio me visitar. Disse aquelas coisas que todo mundo diz, achando que a gente já não pensou em tudo por conta própria. Encheu meu dia de obviedades, mas tudo bem. As horas passaram depressa e chegou o sabádo, dia 21. Fiz uma linda produção no cabeleireiro e fui à luta. Porém, o sábado não foi incrível e ni...