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Mostrando postagens de dezembro, 2014

Olhos de ontem, doutor

"Meus olhos são os de ontem, doutor", disse a senhora ao médico, com a bolsa surrada de courvim preto agarrada ao ombro direito. Reclamava das noites mal dormidas, nada dormidas, enquanto o marido sofria de febre altíssima inexplicável. Queria remédios para ele. "Ele está bebendo muita água?", perguntou o doutor. "Água gelada, leite gelado... ele diz que parece ter uma fogueira ardendo dentro dele. Um desespero, doutor". A voz da senhora era firme e clara. Deveria rezar terço da primeira até a última bolota sem esmorecer no tom da reza. Muito firme a senhorinha. "Se não tiver algum remédio, não tem problema, doutor. Eu peço dinheiro emprestado para minha patroa, para a dona Cecília, dona Cidinha, dona Sebastiana. Peço para as pessoas da minha rua. Se não tiver, não tem problema, eu me arranjo", discursou pesarosa, vestindo sua blusa florida, duas medidas acima de seu tronco encolhido, e saia preta de todas as ocasiões. Como a intimidade sobre o...

O ano novo de Adélia

Há quem frite pedaços de fígado. Há quem frite coraçõezinhos. Há quem frite a pele. Adélia frita um ovo na tarde de verão. Meio-dia já se foi no relógio e muita coisa ficará em sua memória nos próximos dias. Neste fim de ano, ela torce para que o próximo ano seja melhor. É o que afirma todo mês de dezembro desde que entrara na fase adulta. Tem sensações de estar fazendo as coisas de forma errada o tempo todo. O telefone nunca toca com notícias de fogos de artifício. Seus dias andam com sabor de soro fisiológico de geladeira. Não admite que seu sabor seja o mesmo das lágrimas. Mas também não lembra o mar. Os oceanos foram feitos de lágrimas de Deus. Em janeiro, usará as mesmas roupas e comerá mamão de fim de feira toda vez que der as três da tarde. Isso se ficar em casa e não arrumar um emprego. Para o próximo ano, ela promete aceitar oportunidades que antes não imaginara, por respeito aos diplomas conquistados até então. Bobagem. A grana é necessária e necessidades são sempre urgentes...

A delicada Sinomara

Parecia não ser muito prudente pendurar o barulhento mensageiro dos ventos logo ali, na porta de entrada. Era grande e ruidoso e não faltaria quem reclamasse do tilintar repetitivo. Não se pode fazer tudo de acordo com o que se deseja. Há o outro. Há a Amália, o José, a Haydée, o Felipino, a Úrsula, a Vitória, a Sebastiana, o Irineu. Há também o Eulálio que mora na casa dos fundos. E há muitos cachorros que podem desandar no latido da madrugada, incentivados pelos cilindros de metal. Há quem não goste, há quem goste mais ou menos, há os indiferentes. Mas sempre há. Os que não gostam de nada estão a postos com suas caras de marmelada amarga. Na manhã de sol ameno e vento franco, Sinomara arrancou o mensageiro dos ventos da porta de entrada. Durara apenas uma noite ali. Os cães não desandaram em latidos na madrugada, nem os vizinhos mais próximos, como a Sebastiana e o Irineu, reclamaram. Tampouco os de dentro de sua própria casa, como Felipino e Úrsula. Sinomara não dormira bem, preoc...