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Mostrando postagens de maio, 2011

Lua vendida

As fases da lua foram vendidas uma a uma a preço de alforjes velhos. Quem comprou imaginou fazer bom negócio. Quem vendeu sorriu até o dia amanhecer, fitando o sol em luminosidade desafiadora. Aquela noite estava perfeita, com suas tochas, fogueiras, sacrifícios e lobos uivantes. Ninguém duvidou que os deuses iluminariam a festa ditosa. Ninguém imaginou que por detrás de uma grande pedra um forasteiro observava a maldita cerimônia. Perguntava-se qual a utilidade de um rei ser dono de fases de luas. Observava com os músculos inertes. Mulheres de corpos fantasmagóricos bailavam ao redor de fogueiras enormes. Uma era a mais bela de todas, com cabelos que se arrastavam até o chão. O som dos tambores era desafiador. Não podia ficar ali parado. Um lobo de pelagem escura assoprou em seu ouvido que era para chegar mais perto da festa. Em meia a tanta balbúrdia que diferença faria um homem a mais ou a menos. Era arriscado se aproximar, era irresistível a música. O lobo desapareceu. O...

Maçã cortada

Maçã cortada ao meio Pedra rolada de assalto Ao som de águas mornas Turvas, torpe Não foi lascivo Não foi de ímpeto Não foi temero Foi Trêmulo Seco, objeto sangrado Macio, vermelho Maça cortada ao meio Deserto queima no coração De quem tanto esperou O rolar de pedras A calma morna da calada dos dias Calada Veste-se Ainda há gotas de maçã cortada No eco do deserto palpitante.

Pacto com as paredes

Paredes brancas testemunhas de atos irreais. Talvez esta noite ele durma mais tranquilo, sem ter cães devoradores ao lado de sua alma. Não é fácil ter gostos tão sutis em meio à parafernália da metrópole exigente que quer sangue quente e fresco a cada madrugada. Enxergou sóis triangulares e ouviu urros uterinos de jacarés-fêmea que não largaram seu corpo por horas a fio. Sente coçar as marcas nos pulsos, abertas há quinze dias. Atos infernais depois de quatro doses de whisky com ácido sulfúrico. Ninguém o avisou que a estrada seria cor de petróleo e que os aromas doces de papoulas envenadas não eram para ele. Convidado insólito de festa acabada, caótica, manchada de suores amargos e viscosos. Já é dezembro em seu calendário cambaleante. Já é fim de ano e de vida. Quando passar da meia-noite, brindes de novos ares, promessas de novos amores, tagarelar de novas esperanças, girar de tambores para ver quem tira a munição do azar. Ele sempre faz promessas, de joelhos, em frente às sua...

Corre besouro

Corre, corre, corre Besouro fantasiado de medo Corre, corre, corre Porque o dragão não te teme e vem Correndo, correndo, correndo Maior que você Com fome, com gana, com uma África inteira Selvageria de savana Correria, correria, correria Desvia de pedra Desvia de pau Desvia de flor, de mato, do teu amor à vida, besouro O chão treme A poeira sobe e sente tiro certeiro Pobre besouro Torcia por ele Casco duro, bom coração.

Em meio a laranjas podres

Deixei a chave debaixo da sexta laranja que havia no cesto Sua sexta-feira choveu na minha alma em gotas ocre indefinível Achei que a declaração era falsa e debaixo do sexto carimbo certificado Certifiquei-me que seus atos não passavam de sexta-feira mal cheirosa Falso, incrédulo, perdulário Onde você colocou meu terço e meu sacrário na sexta vez que te pedi naquela terça-feira chuvosa e mal cheirosa de maio Você sempre arromba meu cofre em seis segundos e leva minhas intimidades embora Como na última vez daquela segunda-feira nublada e já noite em que fiz minha última confissão Malas, revólveres, lençóis, embaraços de uma quarta-feira mal resolvida Ninguém invade a alma de uma pecadora confessa cinéfila, louca, virgem, malbaratada em dia mal cheiroso, chuvoso A chave está em segredo em meio a laranjas podres.

A medalha de honra do rato

Não dormi quase nada esta noite. Os ratos deste apartamento são infernais. Fazem barulho a madrugada inteira e parecem conversar em voz alta em uma festa que é só deles. Acendendo a luz, não vemos nenhum. Ao apagá-la, começa o burburinho. Pela manhã, lá estão os rastros da festança. Farelos, roídas, traços sujos. Nem adianta sair à caça. Adélio também não se anima a dar paulada em roedores. Eles são ágeis, e às vezes acredito que nem existam. Talvez sejam fantasmas, frutos de nossa imaginação moderna e já perturbada demais. Hoje nem animo a fazer café, vou requentar o de ontem. Adélio só volta às dez da noite e vou pensar em como sobreviver a ratos com o mínimo de esforço possível. Quero me afundar em uma poltrona por horas. Aliás queria, porque a campainha acaba de tocar. Tinha que ser a vizinha chata do apartamento contíguo. Como é de costume, usa vestido preto florido cafona arrastando os chinelos como uma eterna mulher em resguardo. Terei que fazer cara de amizade, de cortesia...

Do buraco da fechadura eu observo Bárbara

Do buraco da fechadura eu observo Bárbara. Ela está meio estranha hoje. Aliás ela está meio estranha sempre. Tem os olhos esquisitos, com o rímel todo borrado. Será que não viu isso no espelho? Ou acha que é charme sair de cara borrada como uma louca? Eu odeio essa Bárbara! Troca de roupa umas cinco vezes por dia. Até parece que faz algo importante nessa vida. Não trabalha e só sabe fazer chilique em casa quando quer alguma coisa da mãe, que morre de medo dela. Bárbara é comprida e fica horrível no salto alto. Mas você pensa que ela usa salto alto só de vez em quando? Não! Essa cadela odienta usa salto todos os dias e tem mais de 78 pares dele. O buraco da fechadura é estreito, mas eu observo que hoje Bárbara está com ares de vingança. De querer fazer justiça. Quem mandou se apaixonar por um pé-de-chinelo? O pobre não deve nem ter dinheiro para comprar um sapato de salto para a esfomeada, e quem nos dirá comprar o par completo! O cabra é mais novo que ela e safado que só vendo. Eu sab...

Azedume

Já vi uma formiga subir no capim e ele vergar Já vi a lagartixa esperar o ônibus passar para atravessar a rua Já vi o sino da igreja tocar e acordar o bebê da casa vizinha Já vi gente desastrada passar perfume e deixar o frasco cair no chão Já vi quem lia atentamente as notícias do jornal do passageiro ao lado Já vi a chuva cair de repente quebrando o que sobrou de sombrinhas baratas Já vi a moça no supermercado trocando preços nas latas de conserva Já vi o vento soprar forte e bater a porta de jeito fantasmagórico Já vi a fechadura emperrar e se consertar sozinha no dia seguinte Já vi trem apitar de madrugada para espantar bêbado do meio dos trilhos Já vi banda de rock ensaiar desafinada da janela do meu quarto Já vi barata se recusando ir para o beleléu depois de sapatada potente Já vi marcas de sangue na roupa de quem não viu Já vi batom ter gosto de sabão apesar da cor maravilhosa Já vi vendedora empurrando peças horrorosas pra cima de um pobre cliente Já vi...