Debruçados em meia parede de concreto, vemos lá embaixo flores amarelas como se fossem girassóis miúdos. Abelhas enormes as sobrevoam e, observando o pôr-do-sol no horizonte, falávamos de morte. A luz amarelada, acompanhada das flores vangoghianas, nos estalava vida diante de nossos narizes. Mas falávamos dos mortos. Lembrávamos dos mortos. Todos se vão sem levar um alfinete de suas gavetas. O sol nasce no dia seguinte a despeito dos mortos. Já é outono e tiramos aquela tarde para falar dos mortos, com o coração revirado e os olhos secos. Lembranças sem dramas. Porque não gostamos de chorar o inevitável. Na estação seguinte, as flores amarelas murcharão da noite para o dia. Parecem que são tocadas por forças malignas. Tornam-se galhos marrons retorcidos. As abelhas fogem. O verde à volta dos bambuzais dá adeus. As flores selvagens somem. Talvez apareçam meses depois. Mas durante a morte da estação, preferimos falar de vida, para compensar o calor morno das vísceras do sol. Os mortos p...