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Mostrando postagens de outubro, 2014

Sobre o agora, sem muita compostura

Ainda não enjoei do café Ainda não enjoei do perfume Chorei pela rotina Choro em todas as vésperas Não é tristeza É relógio emperrado Meu corpo não se encaixa Nas dobraduras da horas Como colocar pra fora O que se sente Passando pela goela Se angústia não tem garganta?

A vida futura de Celina

Sobre a cristaleira, ainda duas peças restantes. Venderia mais tarde sem pena do passado. Duas terrinas de porcelana rosa que nunca foram usadas não fariam falta agora que pensava em deixar a casa para o dono do farol. Aquele homem andava insistente e Celina estava velha e cansada demais para discussões. Pela manhã, a areia fina havia entrado pela porta da sala, deixando um rastro de vento desenhado sobre o solo. As vassouradas custaram a completar o serviço. Manter uma casa com oito grandes cômodos para se viver sozinha era um disparate para Celina. O forno não funcionava mais como antes. Percebera que acumulou panelas além da conta. Sua obsessão por panelas de todas as formas e tamanhos a fez encher as paredes da cozinha de ganchos intermináveis. Na última semana, conseguira vender dezesseis delas. O dinheiro não fora muito, mas a urgência da mudança, reforçada pelo velho do farol, empurrava Celina a cometer o inimaginável. As terrinas ficaram por último porque não achava comprador p...

Flores amarelas

Debruçados em meia parede de concreto, vemos lá embaixo flores amarelas como se fossem girassóis miúdos. Abelhas enormes as sobrevoam e, observando o pôr-do-sol no horizonte, falávamos de morte. A luz amarelada, acompanhada das flores vangoghianas, nos estalava vida diante de nossos narizes. Mas falávamos dos mortos. Lembrávamos dos mortos. Todos se vão sem levar um alfinete de suas gavetas. O sol nasce no dia seguinte a despeito dos mortos. Já é outono e tiramos aquela tarde para falar dos mortos, com o coração revirado e os olhos secos. Lembranças sem dramas. Porque não gostamos de chorar o inevitável. Na estação seguinte, as flores amarelas murcharão da noite para o dia. Parecem que são tocadas por forças malignas. Tornam-se galhos marrons retorcidos. As abelhas fogem. O verde à volta dos bambuzais dá adeus. As flores selvagens somem. Talvez apareçam meses depois. Mas durante a morte da estação, preferimos falar de vida, para compensar o calor morno das vísceras do sol. Os mortos p...