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Mostrando postagens de junho, 2013

Observações de Becken sobre as lágrimas amarelas

As lágrimas dela eram amarelas. Isso mesmo. Um amarelo transparente, desmaiado, nada compacto. Não era paracetamol. Eram lágrimas levemente amareladas. Não eram comuns, da cor d'água, escorrendo pelo rosto e engolindo a poeira da pele. Eu sei que ela havia lavado o rosto há pouco tempo. Porque já havia chorado muito antes e trazia os globos oculares plenos de veias finas vermelhas. Chorava sempre escondida. Eu achava que era vergonha de menina que não deseja ser vista em mais um de seus inúmeros momentos de fraqueza. Na verdade, ela tinha era medo. Muito medo toda vez que entrava no pranto compulsivo com caretas de teatro grego. Até babava de tanto drama. Ela demonstrava receio de alguém descobrir que sua lágrima era amarela. E eu sempre imagino se tem gosto de abacaxi, ou de paracetamol. Mas não é amarelo-vivo, que nem o sol, o açafrão ou o ouro. Ela não gotejava ouro. Era tola demais para isso. Mas que é um mistério, isso não podemos negar. Não foi reflexo ou jogo de luz. Não foi...

Ora, Honória

Ora, Honória Arraste o seu vestido lilás Por entre as esperanças esverdeadas Por entre as folhas amareladas do ano Por entre as portas brancas com cupins da casa grande Ora, Honória Agora o chá esfriou no fundo da xícara Nem todo o calor é para sempre Nem mesmo o calor do coração de um amigo Nem mesmo o calor da fogueira que arde hoje Ora, Honória Perdendo a hora por entre os jasmins e as hortelãs Perdendo a pose com o vestido amarrotado Perdendo a roda das amigas perfumadas Ora, Honória Acabou. Acabou. Recolha-se em seu travesseiro com penas de amora. Adormeça. Amanhã é dia de chuva. A fogueira de hoje arderá em sua espera.

Tolice de marinheiro

Agarrei-me aos cabelos castanhos da vida Pedi-lhe mais sorrisos Mais cores fortes Chás revigorantes que me arranquem o medo Olhei fundo em seus olhos d'água As minhas dores rolaram serenas juntando-se ao oceano Guardei alguns fios de sua cabeleira para a sorte de mais tarde Tocá-la em carne e osso Nos cabelos brancos escondidos há memórias Lágrimas mornas Sorrisos ecoando tão longe Implorei-lhe para quebrar a garrafa com o papelucho dentro Segredos meus e dos marinheiros Tolices de um diamante com cicatrizes Apagando as pegadas em dia quente de areia O vento pregava peças em cortinas imensas Baixei minha voz até ser burburinho de multidão esgotada Da vida não peço o grande tesouro Da vida eu peço a liberdade do mar.

Sonho nevado

Era difícil manter os pacotes de farinha todos empilhados na última prateleira. Para quem tem baixa estatura, o mundo é uma escada longa e malvada. Cada degrau sujo de farinha ainda deveria ser limpado naquela tarde pela Dona Flanézia, que apesar das inúmeras vassouradas diárias não emagrecia um pontinho na balança. Beliscava os casadinhos do confeiteiro todos os dias. Tarefa escondidinha. Delícia. Tirar farinha grudada no cimento não era mole não. Toda tarde era o momento mágico de cheirar recheio doce de sonho e sonhar com as aparas dos biscoitos recém-assados. O saco de farinha despencou hoje da última prateleira. Estourou e tudo ficou brancamente fantasmagórico. Para quem é de baixa estatura, a vida é uma aventura everestiana. Pó branco para todo o lado. Tristeza de ver ingrediente desperdiçado. Tristeza de imaginar o patrão xingando. Tristeza de presenciar Dona Flanézia com pá e vassoura, com cara de cachorro brabo. Dia de azar enfarinhado este. O confeiteiro faltou pela gripe in...