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Mostrando postagens de março, 2014

'Trecho IV'

(...) Já era noite. As mesmas ruas diante dos olhos pequenos e pretos de Soraia. Nem percebeu o dia se escondendo atrás dos prédios. A fome não voltaria mais até o amanhecer seguinte. Ela se alimentava na veia de dúvidas e medos. Perguntou quanto era e a moça, que nem percebeu as horas em que Soraia esteve colada à cadeira, deu o troco mecanicamente sem olhar em seus olhos. Mais um dia terminava e Soraia apertava em suas mãos o dinheiro valioso que tinha e o embrulho pequeno surrado. Enquanto saía cruzou na porta com uma moça de baixa estatura, longos cabelos loiros e sobrancelhas pretas grossas. Seu cabelo tinha cheiro de chá de camomila. Soraia ficou parada, observando-a por uns largos minutos a comprar cigarros e três pães de sal. Tinha a boca rosa-choque e acendeu o cigarro ali mesmo. Estragaria o perfume dos cabelos lisos com aquela fumaça toda. Seus olhos se encontraram após o troco. A loira reparou em Soraia os olhos secos e fundos, de quem sofria de mal incurável. Lábios rach...

Março

No horizonte havia um rasgo Amarelo na imensidão cinza Outono que se calava  Chuva doce que caía Com cheiro de mate Marrom Para que mate a saudade Que ficou no reflexo De uma pétala caída Feito algodão Cinza O tempo é maldito Amarela memórias Ressalta despedidas Cinza na imensidão amarela Outono que se calava Tempestade que se repetia. 

Danger

Chegou em casa cheia de lama nos pés. Havia perdido os sapatos pelo caminho depois do temporal. A primeira coisa que fez foi tomar xarope e abrir o dicionário de francês. O que estava escrito no portão da garagem da última rua do bairro Ária era o que a intrigava. A casa já estava cheia de pegadas de terra. O xarope não a deixaria adoecer e o banho poderia ser adiado para mais tarde. Procurou no dicionário a letra P. Percorreu praticamente todas as palavras. A ausência da palavra buscada a fez ler até o desnecessário. Frustrada, despedaçou o livro golpeando-o na parede. As mãos sem lama encharcaram-se nas lágrimas. A garagem não era aberta por pelo menos vinte anos. Quase ninguém morava mais por perto. Ária era um bairro de poucos habitantes. Quase todos se foram pela violência. A palavra em francês pichada na porta de metal em tinta verde fosforescente era a única coisa que coloria Ária. E ela percebera isso quando passou de ônibus em um dia qualquer. No começo, intrigou-se pela pal...