(...) Já era noite. As mesmas ruas diante dos olhos pequenos e pretos de Soraia. Nem percebeu o dia se escondendo atrás dos prédios. A fome não voltaria mais até o amanhecer seguinte. Ela se alimentava na veia de dúvidas e medos. Perguntou quanto era e a moça, que nem percebeu as horas em que Soraia esteve colada à cadeira, deu o troco mecanicamente sem olhar em seus olhos. Mais um dia terminava e Soraia apertava em suas mãos o dinheiro valioso que tinha e o embrulho pequeno surrado. Enquanto saía cruzou na porta com uma moça de baixa estatura, longos cabelos loiros e sobrancelhas pretas grossas. Seu cabelo tinha cheiro de chá de camomila. Soraia ficou parada, observando-a por uns largos minutos a comprar cigarros e três pães de sal. Tinha a boca rosa-choque e acendeu o cigarro ali mesmo. Estragaria o perfume dos cabelos lisos com aquela fumaça toda. Seus olhos se encontraram após o troco. A loira reparou em Soraia os olhos secos e fundos, de quem sofria de mal incurável. Lábios rach...
O improvável sorri com dentes de hiena. Bem-vindo(a).