Apoiado em sua antiga bengala, Ernesto pensava na solidão. O tempo varre os ciscos ao redor da idade, até deixá-la polida e invejável, mas nem por isso admirável. Porque, ao redor, todos se foram, varridos também pelo tempo. As ruas pareciam mais calmas quando Ernesto chegou à janela com os passos pequenos e não muito firmes. Andava somente dentro de casa, de cômodo em cômodo, de janela em janela, do jardim à sala, com muito esforço. Sua dedicação era para não ficar pior do que já estava. A solidão em quem não se move é algo que pesa muitas toneladas. Ernesto se equilibrava na bengala para vencer os dias.
Marina o ajudava como podia. Fazia café, preparava alguma comida e limpava tudo uma vez por semana. Não tinha horário certo. Era quando podia. Tinha pena do velho Ernesto que ficou só em uma casa grande, depois que a esposa partira. Os filhos o visitavam uma vez por ano, sempre muito ocupados. Ernesto cada vez conversava menos. Gostava de admirar a rua, estando movimentada ou não. Observava com atenção os dias de lua cheia porque a palmeira do outro lado da rua fazia uma sombra bonita diante dela. Era como uma pintura. Ernesto só gostava das noites de lua cheia. As outras noites para ele eram um martírio. Não se pode ver o tempo correndo pelo escuro. Como se fosse possível agarrá-lo pelo colarinho durante o dia. O tempo é uma eterna criança, que corre por todos os cantos.
Ernesto não gostava de sonhar. A cada dia dormia menos e se sentia mais cansado. De manhã, bem cedo, requentava o café feito por Marina no dia anterior. Colocava um pouco de leite, e bem devagar se dirigia ao jardim, para observar alguns vasos de plantas que permaneceram mesmo depois da casa já tão esvaziada pelas horas que passam. O dia de Ernesto se cumpria em muita observação e poucas palavras. Imaginava diálogos mentais consigo mesmo. Marina não tinha tempo para prosa. Muito atarefada. Não podia exigir muito de quem recebia tão pouco para cuidar de um velho na solidão. Ernesto não gostava de pensar no dia de sua partida. A ideia de morte o dava calafrios. Não estava bem de saúde, mas ainda levava a sua bengala de um lado para o outro na casa de tacos gastos pelo tempo-menino que corre. Se o tempo fosse gente, como seria o seu rosto? O de um menino, claro, pensava Ernesto. Já a morte teria rugas na face monstruosa. Amanhã seria dia de lua cheia. Ernesto pedia para Marina fazer um círculo no calendário no dia em que o satélite apareceria gordo e brilhante. Era dia de admirar a pintura da palmeira.
Durante a noite, Ernesto teve sonhos confusos, com todos os seus parentes. Conversou com a mãe, a esposa, as tias preferidas e os primos que foram quase como irmãos. Acordou se sentindo estranho. Tudo estava muito diferente dentro dele. Uma leveza irreconhecível o fazia movimentar-se melhor com a bengala. Marina já estava coando o café. Ele se dirigiu para o jardim e se sentou em uma velha cadeira. A manhã estava quente, como a do dia em que se casou. Lembrou de tudo o que acontecera naquele dia. Espantou-se com as memórias frescas. Sim, ele se casou apaixonado por Eulália. Depois, tomaram o trem rumo a uma cidade vizinha, onde havia um pequeno hotel para se andar a cavalo. Como o dia estava forte e bonito para memórias. À noite, admiraria a lua cheia.
O café feito por Marina não chegou a ser tomado por Ernesto. A bengala estava estendida no chão. Suas mãos estavam caídas e inertes. O coração de Marina apertou-se em um soluço. O tempo é um menino que corre em muitas direções, que alcança calcanhares com uma grande esperteza, que não se detém diante de luas ou palmeiras. Quando o tempo para, é um grande mistério. O velho Ernesto levava no rosto um sorriso esboçado de boas recordações.
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