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A vida futura de Celina

Sobre a cristaleira, ainda duas peças restantes. Venderia mais tarde sem pena do passado. Duas terrinas de porcelana rosa que nunca foram usadas não fariam falta agora que pensava em deixar a casa para o dono do farol. Aquele homem andava insistente e Celina estava velha e cansada demais para discussões. Pela manhã, a areia fina havia entrado pela porta da sala, deixando um rastro de vento desenhado sobre o solo. As vassouradas custaram a completar o serviço. Manter uma casa com oito grandes cômodos para se viver sozinha era um disparate para Celina. O forno não funcionava mais como antes. Percebera que acumulou panelas além da conta. Sua obsessão por panelas de todas as formas e tamanhos a fez encher as paredes da cozinha de ganchos intermináveis. Na última semana, conseguira vender dezesseis delas. O dinheiro não fora muito, mas a urgência da mudança, reforçada pelo velho do farol, empurrava Celina a cometer o inimaginável. As terrinas ficaram por último porque não achava comprador para elas no verão. Terrinas lembram líquidos fumegantes.
Quando o velho do farol era jovem, Celina gostava de observá-lo de longe. Não era bonito, mas exalava segurança e certeza no que fazia. Morava só em uma casa bem pequena perto do farol. De longe, Celina podia ver quando ele estendia algumas peças de roupas brancas no varal. Ele nunca se casara, mas Celina sim. Foi viver em uma boa casa perto da praia depois da união. Não tivera filhos e sempre guardava uma curiosidade sobre a vida do homem do farol. Jonathan era o seu nome. Não conseguia ver nada da casa dele quando o mar se agitava. Na manhã seguinte, a primeira coisa que fazia era observar se a pequena casa do faroleiro ainda estava de pé. E sempre estava. 
Depois de 40 anos de observação, Celina estava só e cansada de viver perto do mar. Mesmo tranquilo, sua voz era sempre mais alta que a sua. Nunca fora fã do mar. Decerto, não seria boa esposa de faroleiro. Mas não guardava paixão por Jonathan. Tudo era apenas observação e vontade de não ter mais uma casa tão grande como aquela. Grande para uma mulher sozinha com duas terrinas de porcelana rosa.
Ao ver Jonathan em um certa manhã, propôs a ele que ficasse com a casa. Ele não demonstrou muito interesse, no começo. A casa era bonita, mas muito grande para um homem só. Celina prometera entregar o imóvel com algumas mobílias dentro. Levaria com ela apenas o essencial. A casa era fresca no verão e aconchegante no inverno. O telhado estava em ótimo estado e o assoalho ainda conservado. A cozinha era o maior cômodo, mas não deixaria todas as panelas ali. Talvez umas seis ou sete. Para Jonathan, o imóvel era um exagero. Ao mesmo tempo, pensava em sua casa velha e surrada perto do farol, com goteiras e algumas rachaduras. Prometeu pensar.
Celina o observou pacientemente por vinte e seis dias. O farol ficava a cinco quilômetros de sua casa. Ele poderia viver lá perfeitamente e aproveitar a distância para caminhadas que promoveriam sua saúde. No vigésimo sétimo dia de espera, ela perguntou a ele sobre a resposta. "Sim ou não", e tudo se resolveria. O velho aceitou e impôs a Celina a entrega da casa em apenas uma semana. Ela não entendeu se aquilo era uma brincadeira para que ela desistisse da venda, mas aceitou o trato. Começou a embalar o que levaria e a vender o que não queria mais. As panelas foram as primeiras a sair da casa, depois almofadas, cobertores antigos e gaiolas de madeira já vazias. Celina limpava tudo à medida que organizava sua nova vida. Dali em diante, Jonathan a cobrava todos os dias a entrega da casa. 
Celina trazia na mente tudo arquitetado para sua vida futura. Venderia a casa ao faroleiro, por um preço baixo. Àquela altura da vida, dinheiro era o que menos importava. Levaria na mudança poucos móveis, poucas panelas e poucos cobertores. A vida de observação terminaria em breve. O mar teimoso ainda falaria mais alto do que ela por muito tempo. Mas a sós, ninguém precisa saber mais como é o tom de sua própria voz. Moraria a cinco quilômetros dali, em uma pequena casa com goteiras e rachaduras. Penduraria roupas brancas do lado de fora em dias mornos. Serviria café em xícaras de porcelana ao faroleiro todos os dias. As terrinas de porcelana ficariam embaladas debaixo da cama. Quem sabe ainda as conseguiria vender? O mar agitado nunca a deixava ouvir seus próprios pensamentos.

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