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A delicada Sinomara

Parecia não ser muito prudente pendurar o barulhento mensageiro dos ventos logo ali, na porta de entrada. Era grande e ruidoso e não faltaria quem reclamasse do tilintar repetitivo. Não se pode fazer tudo de acordo com o que se deseja. Há o outro. Há a Amália, o José, a Haydée, o Felipino, a Úrsula, a Vitória, a Sebastiana, o Irineu. Há também o Eulálio que mora na casa dos fundos. E há muitos cachorros que podem desandar no latido da madrugada, incentivados pelos cilindros de metal. Há quem não goste, há quem goste mais ou menos, há os indiferentes. Mas sempre há. Os que não gostam de nada estão a postos com suas caras de marmelada amarga.
Na manhã de sol ameno e vento franco, Sinomara arrancou o mensageiro dos ventos da porta de entrada. Durara apenas uma noite ali. Os cães não desandaram em latidos na madrugada, nem os vizinhos mais próximos, como a Sebastiana e o Irineu, reclamaram. Tampouco os de dentro de sua própria casa, como Felipino e Úrsula.
Sinomara não dormira bem, preocupada com o que podia acontecer, e que na verdade nem aconteceu. Humanos e cães de bocas fechadas. Uma noite tranquila para se ouvir o tilintar dos cilindros de metal. Mas o medo. O medo abriu sua bocarra enorme de horror a noite toda nos ouvidos de Sinomara. E se acontecesse o pior? E se? E se? E se? Pobre moça, tão sensível.
O mensageiro dos ventos fora arrancado na manhã de sol ameno e vento fraco. Melhor assim. À tarde houve um temporal que arrancou telhados e inundou ruas e mais ruas. Os raios partiram árvores centenárias. Os trovões ensurdeceram os que gritavam ordens uns ao outros para salvarem o que podiam.
Em meio a tanto alvoroço, seria impossível escutar a delicada mensagem dos ventos, vinda dos finos cilindros de metal, que pertenciam à delicada Sinomara.

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