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Dora

Entrei no ônibus de volta pra casa e lá estava Dora, com sua roupa discreta e cabelos curtos. A primeira vez que conversei com Dora foi há doze anos, no mesmo ônibus, voltando pra casa. Estava cansada e triste. Puxei conversa com ela para que a viagem passasse mais depressa. Uma pessoa comum, solteira, sem filhos e que vive para os sobrinhos. Discreta. Ou talvez com um medo imenso da vida. Gente que não se arrisca. Pobre de Dora, não quero julgá-la.
Conversamos sobre o trivial. Sobre o tempo, calor ou chuva. Não me lembro de muita coisa. Memorizei o bairro onde ela mora. Memorizei ainda que sua vizinhança estava fazendo uma vaquinha para a construção de uma igreja, a Igreja de Santa Cruz. As contribuições eram pequenas, de centavos. Ninguém gostava de colaborar, os dias eram difíceis para todo mundo. Dora ficava por conta da arrecadação mensal. Simplesmente arrecadava. Não fazia mais nada. Não movimentava a coisa, com festa, prêmios, leilões, prendas ou barraquinhas. Não pensava em nada novo. Apenas passava de casa em casa recolhendo os centavos. Achei estranho. E sei que até hoje a igreja não foi construída. O dinheiro não deve ter dado nem para quatro ou cinco telhas.
Depois da primeira vez que vi Dora, fiquei anos sem encontrá-la. Imaginei-a como uma mulher que achava uma aventura sair de sua cidade para resolver algo na cidade vizinha. De uns três anos pra cá, tenho visto Dora com uma certa frequência. O que ela anda fazendo na cidade vizinha? Eu não sei. Nunca entra no ônibus cheia de sacolas. Deve ser econômica. Sempre está vestida de maneira discreta. Seus cabelos curtos já apresentam manchas grisalhas. Deve ter uns quarenta e cinco anos. Memorizei, desde a primeira vez, que Dora não tem os lóbulos furados. Não usa colar, nem anéis ou pulseiras. Dora é seca. Simples.
Chegando à nossa cidade, Dora desceu primeiro. Meu olhar estava grudado nela, e antes que descesse as escadas do coletivo, ela me olhou. Será que Dora também memorizou nossa conversa de doze anos atrás? Provavelmente, não, penso. Com seu corpo magro, de um metro e meio, ela caminha pela rua. Gostaria de saber mais sobre Dora. Mas, ultimamente, não ando tão cansada e triste para conversar com quem está ao meu lado. Tiro os fones do ouvido e desligo o rádio do celular. Minha parada é a terceira depois de onde Dora desceu.

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