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Chá de abeto

Caminhar na neve não é fácil. Dias curtos pedem passos acelerados. Mas, com os pés pesados, ninguém consegue. Os contornos da estrada já haviam desaparecido e a caminhada seria longa até chegar à casa do Sr. Minot. Que trabalho deveria ser feito para que ele chamasse o pobre homem caminhante com tanta urgência? Com passos cada vez mais lentos, ele respira ofegantemente. Bolas de fumaça sobem no ar. Apenas os abetos como testemunha. Ao dobrar uma pequena curva, uma pequena casa surge, com telhados brancos de gelo e uma janela entreaberta. Uma fumaça incessante saía pela chaminé cilíndrica e estreita. Há vida em um ambiente quente. 
O homem acelera a caminhada e observa, ainda de longe, pela fresta da janela, que a casa é simples, contendo o necessário para se viver em um lugar como aquele. Apesar de que viver ali talvez seja apena um ato passageiro, de nem uma estação completa. A cozinha tinha um fogão, que parecia ser muito eficiente, com um grande forno, que parecia não estar sendo usado no momento. Panelas penduradas, alguns utensílios espalhados, cadeiras arrastadas e farelos sobre a toalha xadrez na mesa, como se o ambiente estivesse habitado mas temporariamente vazio. Imaginou-se sentado em uma poltrona mais ao canto, coberta com pele de animal. Sentar, descansar, talvez conversar e talvez retomar fôlego até chegar ao destino, a casa do Sr. Minot. Não estava nem na metade do percurso ainda. Deu um salto ao notar que, pela fresta, passava uma mulher, de cabelos negros e face morena. Ela o notou. Ele disse bom dia e se dirigiu rumo à porta de entrada.
A mulher, assustada, cumprimentou o estranho. Querendo sentar na poltrona com pele de animal e descansar as pernas pesadas do fim da manhã, iniciou uma conversa que precisava ser amistosa. Perguntou onde morava o Sr. Minot. A mulher respondeu o que ele já sabia. E notou seu cansaço, marcado no olhar que parecia estar sem dormir bem há muitas noites. Outro homem surgiu na cena, parecendo ser o pai da mulher, com cabelos grisalhos e muitas rugas no rosto. De fato, não se importou muito em pensar no parentesco entre os dois. O que queria era sentar na poltrona coberta com pele de animal por uma hora, ou duas. Ele saudou o homem e perguntou o que ele queria. Desta vez, em vez de perguntar sobre o destino da casa do Sr. Minot, ele resolveu contar toda a sua história até ali, de viagem longa, cansaço e um trabalho urgente a fazer e que ainda não sabia qual era. O senhor de cabelos grisalhos pediu para que ele, então, se sentasse um pouco para descansar. Apressadamente, ele escolheu a poltrona coberta com pele de animal. Talvez fosse a favorita de alguém, mas nem pensou sobre isso. 
Ofereceram-lhe chá de abeto, bem quente. Aceitou de pronto, mesmo tendo a opinião que o cheiro é  melhor que o gosto, e que é perfeito para ser inalado e não tomado. Precisava de algo para se aquecer. O senhor e a filha lhe fizeram companhia, ouvindo algumas histórias. Depois de meia hora, o senhor se levantou e deixou a filha sozinha com o visitante, dizendo que ajeitaria a lenha no fogão da cozinha. O chá de abeto já havia terminado e o homem continuou segurando a xícara grande na mão por não saber onde deixá-la. Observou bem o rosto da mulher morena. Tinha traços fortes, bem marcados. Os cabelos negros eram lisos. Parecia ser uma mulher direta, apesar da voz mansa. Ele insinuou se levantar, mas ela pediu para que ele descansasse mais um pouco. Contou que não moravam ali, mas em uma cidade maior que ficava a dez quilômetros. A casa pequena era só para temporadas curtas durante o inverno, para que seu pai caçasse alguns animais para tirar a pele, que seria curtida, preparada e vendida para clientes antigos na cidade maior. Seriam apenas uns três meses morando ali. Não conheciam o Sr. Minot pessoalmente, e nem sabiam com o quê ele trabalhava. Já tinham ouvido falar que ele era um homem sério, de poucas palavras. O homem perguntou se ela era casada e se tinha filhos. A partir desse momento, algo estranho invadiu o ar.
Ela se levantou e fitou seriamente os olhos do forasteiro. Ele depositou a xícara grande no chão. Ainda sentia nas narinas o cheiro descongestionante do chá de abeto. A casa toda tinha cheiro dessa árvore. Sentiu-se estranho ao ficar de pé e notar que as pernas continuavam cansadas na mesma maneira. A mulher demorou a responder que não era casada e que não tinha filhos. Quanta demora e quanto suspense! Talvez houvesse uma história enorme por trás dessa resposta tão seca e simples. Vinda da mulher direta, com voz mansa. O homem de cabelo grisalho não voltou à sala. A mulher não pediu para que ele se sentasse novamente. Ele percebera que não estava descansado por completo. Ficou com vergonha de ter deixado a xícara pesada sobre o assoalho.
Meia hora depois, estava com os pés exaustos de enfrentar a estrada cheia de neve. Abetos o cercavam. Não conseguira nenhuma informação que valesse a pena sobre o Sr. Minot. Não sabia nem o nome dos moradores da cabana. Estava com fome, longe do destino e cansado. Que perda de tempo essa de enamorar-se de uma poltrona coberta com pele de animal.

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