Dona Esmeraldina ligou pra mim às quatro da tarde. O assunto era urgente, sobre uma sobrinha que a destratara pelo telefone, horas antes, só porque ela se recusou a ajudá-la financeiramente em um empréstimo bancário. Moro na mesma rua de Dona Esmeraldina e a conheço há mais ou menos um ano. Não é muito tempo, mas sempre conversamos desde que mudei para perto dela, moradora da região há mais de vinte anos.
Era a segunda vez que Dona Esmeraldina me ligava. Morava sozinha, viúva e sem filhos. Tinha cinco sobrinhos adultos, que volta e meia a infernizavam, quase sempre sobre dinheiro. Ela podia ter ligado para diversos outros moradores da rua, vizinhos antigos, mas acabou ligando pra mim, no meu dia de folga, para desabafar assuntos familiares. Eu, com cara de boazinha, devo ter despertado a confiança de Dona Esmeraldina.
Atravessei a rua e toquei a campainha da casa às 16h17. Não demorou muito e ela atendeu. Nunca havia entrado em sua casa. Nossas conversas eram no portão ou pela janela. A construção era da década de setenta. Pensei isso por causa dos azulejos pequenos e coloridos encrustados nas paredes. Nelas, alguns quadros com flores e um com o Sagrado Coração de Jesus. Sobre o sofá amarelo de três lugares, havia uma manta branca. As pessoas fazem isso para esconder buracos no estofado. Logo depois, me envergonhei desse pensamento. Não estava lá para reparar na casa de Dona Esmeraldina, e sim para ouvi-la em suas aflições.
A sobrinha era uma desnaturada. Era a mais nova dos cinco e morava em uma cidade vizinha. Cismou em comprar uma moto. Não tendo dinheiro suficiente, pensou no empréstimo em uma financeira. Pensando nos juros, ligou para a tia que é aposentada. Juros mais mansos, não é? E no mais, Dona Esmeraldina não soube explicar muita coisa porque não entendia nada de empréstimos complicados. Sua resposta havia sido não, e não voltaria atrás. Claro que a sobrinha ficou magoada. Ela falou o nome da moça várias vezes, mas não memorizei. Algo parecido com Simone. Talvez Ivone.
Dona Esmeraldina vestia calça de tecido bege e uma blusa, sem mangas, alaranjada. Notei que era roupa de sair, e não daquelas macias que a gente usa para ficar em casa. Seu cabelo era curto e simples. Não usava brincos. No pescoço, um cordãozinho dourado levava dois pingentes: um trevo de quatro folhas, também dourado, e uma pedra verde redonda, encaixada em uma base de metal do mesmo formato. Um verde da cor do trevo, de três folhas mesmo, visto ao vivo. Enquanto Dona Esmeraldina explicava o triste episódio do dia, os pingentes se balançavam levemente.
A sobrinha não tinha educação com os mais velhos. Era uma tratante. Mesmo assim, Dona Esmeraldina não chorou em nenhum momento. Pelo menos na minha frente. Seus olhos não tinham a marca de quem havia chorado. Na idade dela, acho que a gente nem chora mais. Só do coração pra dentro. Entendi que a moça havia sido grossa. Rompera relações com a tia que, por sua vez, não tinha obrigação alguma de ajudar no empréstimo. Eu concordava com tudo o que dizia Dona Esmeraldina, balançando a cabeça de forma positiva. Notei que minha presença era um consolo para que ela desabafasse. Vivia tão sozinha naquela casa azulejada e parada no tempo.
Olhei mais para os pingentes do que para os olhos de Dona Esmeraldina, que falava sobre sua adversidade de maneira clara e pausada. O sofá era confortável. Depois de vinte e seis minutos de explanação da vida, Dona Esmeraldina fechou os lábios e olhou fixamente para meus olhos. Um olhar que aguardava uma resposta. Sem saber o que ela perguntava, pois me havia perdido em meio a tantos detalhes de seu problema, fiquei calada por segundos que pareceram horas. Perdida, então, respondi:
- Disso tudo, Dona Esmeraldina, posso dizer que o caso é bem chato mesmo. A senhora tem razão.
Ela se encostou no sofá e respirou profundamente.
Dona Esmeraldina estava aliviada por ter desabafado? Não sei. Só sei que quero dois pingentes como o dela. Hipnotizantes. Um trevo para dar sorte e uma pedra verde para chamar de esmeralda.
Era a segunda vez que Dona Esmeraldina me ligava. Morava sozinha, viúva e sem filhos. Tinha cinco sobrinhos adultos, que volta e meia a infernizavam, quase sempre sobre dinheiro. Ela podia ter ligado para diversos outros moradores da rua, vizinhos antigos, mas acabou ligando pra mim, no meu dia de folga, para desabafar assuntos familiares. Eu, com cara de boazinha, devo ter despertado a confiança de Dona Esmeraldina.
Atravessei a rua e toquei a campainha da casa às 16h17. Não demorou muito e ela atendeu. Nunca havia entrado em sua casa. Nossas conversas eram no portão ou pela janela. A construção era da década de setenta. Pensei isso por causa dos azulejos pequenos e coloridos encrustados nas paredes. Nelas, alguns quadros com flores e um com o Sagrado Coração de Jesus. Sobre o sofá amarelo de três lugares, havia uma manta branca. As pessoas fazem isso para esconder buracos no estofado. Logo depois, me envergonhei desse pensamento. Não estava lá para reparar na casa de Dona Esmeraldina, e sim para ouvi-la em suas aflições.
A sobrinha era uma desnaturada. Era a mais nova dos cinco e morava em uma cidade vizinha. Cismou em comprar uma moto. Não tendo dinheiro suficiente, pensou no empréstimo em uma financeira. Pensando nos juros, ligou para a tia que é aposentada. Juros mais mansos, não é? E no mais, Dona Esmeraldina não soube explicar muita coisa porque não entendia nada de empréstimos complicados. Sua resposta havia sido não, e não voltaria atrás. Claro que a sobrinha ficou magoada. Ela falou o nome da moça várias vezes, mas não memorizei. Algo parecido com Simone. Talvez Ivone.
Dona Esmeraldina vestia calça de tecido bege e uma blusa, sem mangas, alaranjada. Notei que era roupa de sair, e não daquelas macias que a gente usa para ficar em casa. Seu cabelo era curto e simples. Não usava brincos. No pescoço, um cordãozinho dourado levava dois pingentes: um trevo de quatro folhas, também dourado, e uma pedra verde redonda, encaixada em uma base de metal do mesmo formato. Um verde da cor do trevo, de três folhas mesmo, visto ao vivo. Enquanto Dona Esmeraldina explicava o triste episódio do dia, os pingentes se balançavam levemente.
A sobrinha não tinha educação com os mais velhos. Era uma tratante. Mesmo assim, Dona Esmeraldina não chorou em nenhum momento. Pelo menos na minha frente. Seus olhos não tinham a marca de quem havia chorado. Na idade dela, acho que a gente nem chora mais. Só do coração pra dentro. Entendi que a moça havia sido grossa. Rompera relações com a tia que, por sua vez, não tinha obrigação alguma de ajudar no empréstimo. Eu concordava com tudo o que dizia Dona Esmeraldina, balançando a cabeça de forma positiva. Notei que minha presença era um consolo para que ela desabafasse. Vivia tão sozinha naquela casa azulejada e parada no tempo.
Olhei mais para os pingentes do que para os olhos de Dona Esmeraldina, que falava sobre sua adversidade de maneira clara e pausada. O sofá era confortável. Depois de vinte e seis minutos de explanação da vida, Dona Esmeraldina fechou os lábios e olhou fixamente para meus olhos. Um olhar que aguardava uma resposta. Sem saber o que ela perguntava, pois me havia perdido em meio a tantos detalhes de seu problema, fiquei calada por segundos que pareceram horas. Perdida, então, respondi:
- Disso tudo, Dona Esmeraldina, posso dizer que o caso é bem chato mesmo. A senhora tem razão.
Ela se encostou no sofá e respirou profundamente.
Dona Esmeraldina estava aliviada por ter desabafado? Não sei. Só sei que quero dois pingentes como o dela. Hipnotizantes. Um trevo para dar sorte e uma pedra verde para chamar de esmeralda.
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