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Seis ou sete mulheres



Balbúrdia, Balbina!
Menina de barbante
brilhante de lata
de goiabada
no anel
no dedo
fingida de noiva
noiva de barbante
brilhante no olhar
lábios borrados
Balbina
alva, linda
boba, finda
cortes no coração
balbúrdia
confusão
beba, Balbina!
Até o fim
diamante
brilhante
anel de barbante
que a chuva levou.
Balbúrdia, Balbina!
Alva, linda
ioiô com barbante
anel de menina.


Jogou a bacia no chão
Irritada
No alumínio mais um arranhão
Uma coleção acumulada em montanha-russa compassada
Dentro de si cabem tantas
E todas
As que trabalham e recebem
As que trabalham e não ganham nada
As que batem a roupa na soleira do rio
As que riem porque têm seus esmaltes intactos
As que a esbarram e apontam caminhos
Os caminhos que ela corta não a indicaram
O sabão em barra acabou
Ficou miudinho feito a tampa da gasosa
Oferecida a ela em 13 de março de 1983
Caiu feito patinha
Coitada da bacia
Dentro dela cabem muitas e todas
E todas fugiram

Só ficou ela
Moldando à força a soleira do rio.


Enterrou todas as fitas cor-de-rosa
Enterrou as agulhas de tricô
Enterrou bem fundo meia dúzia de retratos
E também seu pequeno perfume favorito
Não esqueceria a aliança de ouro
Tampouco seu lenço, presente da avó
Enterrou todos os retalhos da última costura
Todos os alfinetes de cabeça dourada
O relógio sueco tão fino
Duas fronhas bordadas
Quatro livros de cabeceira
Duas sandálias importadas
Enterrou mais e mais lembranças
De décadas vividas
Mais e mais artigos, propósitos
Encerrou com algumas lágrimas pingadas
Tapou com a terra, vigor em pazadas
Tudo fundo, fundo, muito fundo
Para depois poder se lembrar de tudo
Os soldados já estavam chegando.


Saiu de lá de dentro
onde fazia um calor infernal
do lado de fora
frio alarmante de 10 graus
atravessou a rua e perdeu o táxi
que bom que economizaria então
a mixaria que ganhava
dentro de um colã vermelho
dançando o que não entendia
do cantarolar inglês
da birosca de calor infernal.
Não escolheu nada daquilo
era uma fada quando criança
fez balé em colã rosa
sonhava flores na porta
depois de campainha tocada
a vida dá pontapés em quem não espera.
Imagina trocar a cor do colã
e ainda sonha com sapatilhas
as flores ela deixará para depois
se ajeita no casaco
no frio invernal
amanhã é outro dia, quem sabe?
Ela sabe muito bem.
O colã não trocará de cor.


Com a mesma idade
Com aparências tão diferentes
Pele com sol
Pele com lua
Cabelos nigérrimos em uma
Longos
Cabelos amarelados em outra
Luzidios
Alta ou não
Falam
Falam
Falam
Adoro
Ouvi-las
Sorrisos brancos
Úteros não mais virgens
Casos e sonhos
Sentaram-se em dias tão diferentes
Em minha poltrona de chenille escarlate
Que pena que se levantaram antes do café
Rose and Jose ainda têm uma vida enorme pela frente.


Da cama, penso no próximo ano
Catar caranguejos
Na lama
Em vez de percevejos
No meu abajur
Mas eu
Tão urbana
Da cama, penso em apagar a luz
Preguiça de esticar as pernas
Mas eu nem gosto tanto assim
De pensar na vida
Quando ainda é apenas fevereiro.

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