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O anel de pedra vermelha

Em suas andanças diárias, Urbano encontrou, abandonado no asfalto de uma rua sem saída, um anel com pedra vermelha. Parecia feito de ouro, mas a pedra não parecia rubi. A pedra era opaca, muito estranha, de uma cor escura que o tempo surrou. O dourado resplandecia. Fora descartado por gente importante, pensava Urbano. Mas que pessoa importante frequentaria um beco sem saída com casas tão pequenas?
Era noite fechada, umas dez e meia. Olhou para as janelas da rua pequena. Uma ainda estava acesa, com uma lâmpada incandescente fraca. Era a casa da dona Iva, uma velhinha costureira. Devia estar remendando algo, sentada no sofá da sala, assistindo à ultima parte do capítulo da novela. Nas outras cinco casas, as janelas estavam um breu. Dez e meia da noite, em uma terça-feira, era hora de todos estarem dormindo para enfrentar a quarta-feira. Urbano não é desses. Vive de um trabalhinho aqui e outro ali. No mais, a vida é de andanças, catando uma coisa aqui e outra ali. Um anel de pedra vermelha tinha sido uma surpresa. Parecia ser uma peça masculina. Ficou largo em todos os dedos doentes e magricelos de Urbano. Não pensou duas vezes em colocá-lo junto ao crucifixo que trazia na corrente ao redor do pescoço. E depois pensou muitas vezes em quanto podia valer aquela joia. Se é que era joia mesmo. E depois se sentiu estranho, como se tivesse roubado alguém. O anel era muito para ele, um quase andarilho de cidade grande.
Enquanto andava pelas ruas, desertas na terça-feira, o anel balançava na corrente de um lado para o outro, tilintando no crucifixo de metal barato. No começo, achou interessante, mas logo colocou tudo para dentro da gola da blusa de lã encardida. Talvez topasse de frente com o dono. Como explicaria que o encontrara na rua, no asfalto de um beco de casas pobres? Quem acreditaria naquela história? E se pôs a pensar sobre como o anel parara no asfalto frio da rua pequena. Quem o havia perdido? Fora deixado lá de propósito? Era uma peça já jogada fora há muito e que foi rolando de rua em rua até parar lá? Urbano pensou então no mais provável. Era peça de um roubo e o ladrão a abandonara fugindo da polícia. Nesse momento, Urbano arrancou o anel do pescoço e pensou em jogá-lo na primeira lixeira que avistasse. Estava cansado de tanto pensar. A vida na rua já não é fácil, ainda mais quando a cabeça roda em pensamentos desgastantes.
Ficou com anel na mão, dando voltas em várias ruas, até que o dia amanhecesse. Olhava para ele com seriedade. O dourado era reluzente e poderia valer alguma coisa. A pedra era esquisita e devia ser imitação de alguma pedra preciosa. Deveria conseguir pouco dinheiro em caso de venda. Era bonito, mas não servia em nenhum dos dedos. Não tinha mais medo da polícia, pois ela não o perseguira em momento nenhum da noite. O anel não fazia parte de nenhum crime. Imaginou coisas ruins demais. Era isso.
Ainda tinha alguns trocados no bolso. Estava mais pálido do que de costume. Entrou em uma padaria e pediu café preto puro. Tomou bem devagar, observando o anel em sua mão encardida. Iria vendê-lo a um conhecido que comprava de tudo. Podia valer pouco, mas não ficaria com aquilo nas mãos, despertando mil e um pensamentos cansativos na cabeça.
A decisão estava tomada, mas Urbano só iria mesmo à loja depois de quinze dias. Pensou muito durante esse tempo, com ideias atordoadas de ter se apossado de algo que não era dele. Nem trabalhou aqui e ali para ganhar uns trocados. Só tinha olhos para o anel perdido. Foi como se tivesse a certeza de carregar um cofre nas mãos. Trabalho pra quê? Já em frente à loja do conhecido, Urbano titubeou ao colocar o pé na soleira. Sentia-se estranho. Mais uma vez, a ideia de vender algo que não era dele o invadiu por completo. E se o conhecido fizesse muitas perguntas sobre a joia? E se a pedra fosse rubi de verdade? Estaria lascado, e não rico! Com medo, muito medo, deu meia volta e perambulou até o dia anoitecer.
Com anel na corrente ao redor do pescoço, Urbano nem sentia os pés sobre o asfalto. Parecia levitar de tanto cansaço e preocupação dos últimos dias. Que pesadelo se tornou sua vida depois de ter encontrado o anel. Não o vendera e nem o usara! Que desperdício de tempo! Mas tempo era o que ele mais tinha na vida de andarilho. Tudo bem. Colocou a mão sobre o asfalto da rua do beco sem saída. Estava gelado do ar da noite. Era umas dez e meia, provavelmente, e a janela da dona Iva tinha a luz de uma lâmpada fraca. No dia seguinte, pela manhã, ela se espantaria ao ver em frente à sua porta uma joia com uma pedra que imitava rubi. Daria para salvar as contas do mês. Ninguém procura mais costureira hoje em dia.

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