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Caveira

 A casa tinha três janelas de frente para a rua e uma cor insuportável quando avistada de longe, lá da esquina. A última janela da esquerda sempre ficava com a luz acessa até altas horas. Eu sempre imagino o que as pessoas fazem dentro das janelas iluminadas quando a noite chega, com seu tédio interminável. Nada de novo debaixo do clarão milenar da lua morna de hoje. A janelinha brilhando, num horizonte não muito distante. A luz amarela que não pisca e não acaba de uma hora para outra. Eu sempre perco a hora em que apagam a luz. Eu sempre perco a hora de manhã. A vida sempre me perde quando estou na janela debruçada sobre o nada. Porque é justamente nessa hora de nada e tudo que a vida não me vê. Sou caveira já morta de curiosidade. Às vezes me pego pensando sobre como é a vida lá fora. Se existe mais alguém que observa luzes de janela. Se minhas janelas são observadas. Se a cor da fachada da minha casa também é insuportável. Se alguém também repara quantas roupas eu coloco no varal.

Tudo começou naquele dia frio de primavera quando você me encontrou no meio da rua e disse que sempre me olhava de longe, quando saía de casa para trabalhar. Daí, comecei a perceber que pessoas observam pessoas e que precisava fazer isso também.
Tudo começou quando chovia muito e não tinha nada para fazer em uma casa recém alugada e vazia de móveis e de memórias. Nunca deixei ninguém se aproximar de mim. E sozinha observo janelas e invento fatos para cada luz que eu vejo. Imagino cômodos, móveis e atos para cada bailar de interruptor alheio.
Tudo começou quando minha faca ficou cega e bati na sua porta para você afiar. Eu não sabia mexer com isso e você foi tão gentil. Sua genialidade era encantadora. Aprendi a observar bem os interiores das casas que sempre visito. Imagino cômodos, atos e móveis para cada porta ou esboço dela que consigo perceber. Sempre imagino um jardim ou quintal que um dia visitarei por cortesia. Afinal, não tenho quintal ou jardim na casa onde vivo. E eles são sempre tão inspiradores.
Tudo começou com a faca. Você a amolou uma vez. Duas. Três. Cinco. Doze. Vinte e três vezes. Ficou chato, eu sei. E você foi paciente até demais. Nunca passei da sala. Observou, talvez, que eu era observadora nata. Sou caveira curiosa de faca eternamente cega. Você não entendia que meu objetivo era observar as portas, imaginar os móveis, antecipar os tapetes, os jardins, os quintais, os atos. Você não me atendeu mais. Sua genialidade sumiu. Continuo caveira solitária morta de imaginação.
Debruçada na janela não sou protagonista de nenhuma jornada. Eu observo jornadas eternamente alheias. Eu queria muito saber o que acontece naquela janela onde a luz amarela fica firme e inesgotável até altas horas da manhã.
Tudo começou quando você me disse não. Quanta gentileza. Nem testou o fio da faca na minha garganta de caveira merecedora. Que pena. Que desajuste. Observo uma luz na pequena janela da casa de fachada de cor insuportável como uma grande oficina. Lá dentro, um homem de grande genialidade e fineza amola facas de caveiras observadoras até o sol amanhecer. O ferro sempre está em brasa, da cor daquele laranja de fachada insuportável.

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