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Onde as fragatas pousam

Ilha minha, só minha, eternamente minha com oxigênio celeste em cada começo de manhã. Viro esquinas concretas e te imagino minha, ilha longe, inexistente, no concreto dos meus devaneios ilhados. Ponho minhas mãos no calor de suas mãos de areia e o verde se multiplica no horizonte límpido, com cheiro de coco-de-indaiá.
Meu perfume hoje nas ruas que atravesso é amadeirado, junto com minha cabeça e tronco e membros. Amadeirada inteira na nascença das suas ventas. Eu existo mesmo pisando em concretos e engendrando ilhas minhas, com flores de verão de laranjeira. Quem há de acreditar em espirros esparsos de generosa amadeirada que atravessa calhas depois de muitas chuvas de verão?
Tenho pele outonal de maio sucumbido à escravo calendar, de calêndola na banheira desbravada. Paro sempre e penso dez ou onze vezes ao dia sobre minha ilha imaculada, virginal, de areia amarelada e águas de esmeralda. Lindo imaginar de suas cerejeiras desabrochando em meu peito desacretidado e repetitivo. Balanças de canoas moles e desconcertadas. Disparates em tons de violeta do céu que anuncia cobertores.
Nuvens rasgadas, desmanchadas. Seu travesseiro ainda está aqui espetado na minha presença, chega a geada e o desacredita. Maluquice desconexa de devaneio do desejo ardoroso de chegar logo a minha ilha, só minha, depois de atravessar o asfalto fumegante de concreto por três ou quatro horas até destino fatigante, desestimulante. Eu tenho paz agora em meu peito repetitivo. Depois da despedida de ontem senti o alívio das dores de muitos dias carregadas dentro de meu corpo amadeirado, com cheiro de cerejeira, com mente de coco-de-indaiá, escorrida, lambida, corrida no concreto empoeirado minha alma azulada, repetitiva, imaginativa, sou formiga, imagino ilhas, minhas, só minhas, com presença de laranjeiras e tucanos e águas calmas e nuvens inteiras violetas que anunciam cobertores na madrugada.
Vou pousar meu ouvido no seu travesseiro esquecido e pousar meus olhos nos seus olhos adormecidos na minha ilha. Seus olhos de fragata.


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