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Sapatos molhados

 Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro.

Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram bons amigos. Estudavam juntos quase todas as tardes. Conversavam sobre vários assuntos, mas só um pouco antes da despedida e de ele ir embora para casa. No primeiro ano em que se conheceram, era uma linda amizade. Os outros diziam que era algo mais. Mas para os dois era amizade.
No segundo ano, ela ficou mais distante. Uma paixão avassaladora varria seu coração. Ele ficou quieto, sem dar opinião. Não estudavam juntos como antes. Os cabelos castanhos agora estavam à altura do queixo. Preferia os fios longos, mas permaneceu calado, à espera como cão-de-guarda. Às vezes ela aparecia triste. Ele não perguntava o motivo. Encontravam-se pouco, só em véspera de prova. Dispersa, pedia para ir embora. Mudo, concordava. E o ano acabou, como linha de pipa que vai longe demais.
Ainda sentavam na mesma sala no ano seguinte. Ela quase repetira o ano. Estavam distantes um do outro. Não se encontravam mais como antes. Nem mais em véspera de prova. Agora quando a via, sentia uma pontada no coração, um formigamento no peito. Não importava se seus cabelos eram longos ou à altura do queixo. Se os olhos brilhavam mais ou não. Queria sua presença a qualquer custo. Já nem sabia mais se a paixão ainda fazia parte do coração dela. Ele não sabia mais nada sobre ela. O ano passou e ele só a observou. Não conversavam mais. Não dividiam mais os cadernos. Assim foi de fevereiro a agosto, passando por outubro e chegando a dezembro. Passou dezembro. E mais alguns anos.
Ao atravessar a rua, ele percebeu que ela desviara os olhos. Trazia os cabelos castanhos longos. Os olhos não sorriam, nem choravam. Foram olhos de fuga. O cigarro queimou até o fim, mantendo seu trampolim de cinzas. O apito do trem soou forte, rasgando o fim do dia. Calçou os sapatos molhados. Precisava correr. Correr muito. Correr até alcançá-lo. O tempo dava adeus no último vagão. Era dezembro e chovia muito.

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