Roeu todas as unhas depois de saber da notícia. A dor de cabeça insuportável veio logo depois. As feridas se abriram ao poucos, sem pressa. Afinal, relembrar o passado e seus doces erros não é tarefa fácil para Alayde. Colocou o telefone no gancho e deu vinte e duas voltas pela sala. Atônita. Eu escolheria uma música clássica de fundo para quem presenciasse essa cena patética e circular. Tentou ligar de volta, mas o telefone estava mudo. Pensou em acender um cigarro, mas acabou. Queria fazer um café forte, mas a cafeteira queimou há alguns dias. Tantas coisas estranhas nos últimos tempos. Aliás, coisas estranhas acontecem sempre. Não é porque ontem foi sexta-feira 13 que iria se impressionar com pulos de gatos pretos pelo muro, pelo pobre senhor ali da frente que foi assaltado quatro vezes e pela sacola de lixo do banheiro ter sumido da frente da sua casa antes do caminhão levar. Hoje ela não queria conjecturas, nem fantasias.
Era real. A voz do outro lado era real. Ela conhecia quem ligou. Ela sabia que não era uma brincadeira. O 1° de abril estava longe. A chuva estava próxima. A família estava distante há anos. Os pais já haviam partido há décadas. Sem coragem de enfiar a chave na fechadura. Sem coragem de dormir. Quem faria aquela atitude torpe contra ela, pobre viúva, tão honesta, de saia comportada, seios flácidos, olhos lacrimejantes. Era real. O telefonema, a casa e a cena eram reais. A cama ainda desarrumada, a preguiça latente, Alayde era real, era visível. Seu pequeno apartamento não seria abandonado. Então, se é real, cadê as pessoas, o burburinho, a correria, os olhos lacrimejantes dos outros. Cadê as flores do seu jardim mental? Colhidas pelas frustrações, claro, Alayde.
Um chá de nada agora para acalmar. Preguiça eterna de Alayde. Sentada no sofá, ainda atônita, refazendo-se. Patética. Vinte e duas voltas agora só na cabeça. Quem vai comparecer, ser sincero, falar bonito, chorar às claras, acender a vela, puxar o terço sonolento? Dores de cabeça há semanas. Verdade ou mentira? Brincadeira ou seriedade crua vinda com este amanhecer de verão frio.
Ânimo era a palavra que deveria chegar. Bateu à porta e entrou. Era o momento. Colocou o vestido azul de ocasiões sérias. Quase esqueceu a bolsa. Era a hora. Na esquina poderia verificar tudo. Passos apressados. Firmou a vista para ler o cartaz de letras normais. Ela era terrível com seus olhos lacrimejantes. Escrito ali que com pesar os parentes e amigos comunicavam o falecimento de Alayde Costa de Oliveira Barros. Cristo, era ela! Não sabia de outra. Morria, por suas contas, aos 63 anos. Viúva jovem, ainda com tanta coisa por fazer.
Brincadeira ou verdade? Alayde coçava os cabelos enquanto pensava. Parecia ter piolhos por todo o corpo. Caminhou e mais cartas de falecimento de Alayde, em postes, muros, casas, por todo o bairro. De manhã, ruas desertas. Preocupada, dormiu fora de casa. Verão de frio na madrugada. Atormentada. Desaparecida. Quem sabe amanhã ou depois, a carta se passe por verdadeira. Mas quem foi o gênio perspicaz desse anúncio?
Ele se apresentará amanhã, às16 horas.
Era real. A voz do outro lado era real. Ela conhecia quem ligou. Ela sabia que não era uma brincadeira. O 1° de abril estava longe. A chuva estava próxima. A família estava distante há anos. Os pais já haviam partido há décadas. Sem coragem de enfiar a chave na fechadura. Sem coragem de dormir. Quem faria aquela atitude torpe contra ela, pobre viúva, tão honesta, de saia comportada, seios flácidos, olhos lacrimejantes. Era real. O telefonema, a casa e a cena eram reais. A cama ainda desarrumada, a preguiça latente, Alayde era real, era visível. Seu pequeno apartamento não seria abandonado. Então, se é real, cadê as pessoas, o burburinho, a correria, os olhos lacrimejantes dos outros. Cadê as flores do seu jardim mental? Colhidas pelas frustrações, claro, Alayde.
Um chá de nada agora para acalmar. Preguiça eterna de Alayde. Sentada no sofá, ainda atônita, refazendo-se. Patética. Vinte e duas voltas agora só na cabeça. Quem vai comparecer, ser sincero, falar bonito, chorar às claras, acender a vela, puxar o terço sonolento? Dores de cabeça há semanas. Verdade ou mentira? Brincadeira ou seriedade crua vinda com este amanhecer de verão frio.
Ânimo era a palavra que deveria chegar. Bateu à porta e entrou. Era o momento. Colocou o vestido azul de ocasiões sérias. Quase esqueceu a bolsa. Era a hora. Na esquina poderia verificar tudo. Passos apressados. Firmou a vista para ler o cartaz de letras normais. Ela era terrível com seus olhos lacrimejantes. Escrito ali que com pesar os parentes e amigos comunicavam o falecimento de Alayde Costa de Oliveira Barros. Cristo, era ela! Não sabia de outra. Morria, por suas contas, aos 63 anos. Viúva jovem, ainda com tanta coisa por fazer.
Brincadeira ou verdade? Alayde coçava os cabelos enquanto pensava. Parecia ter piolhos por todo o corpo. Caminhou e mais cartas de falecimento de Alayde, em postes, muros, casas, por todo o bairro. De manhã, ruas desertas. Preocupada, dormiu fora de casa. Verão de frio na madrugada. Atormentada. Desaparecida. Quem sabe amanhã ou depois, a carta se passe por verdadeira. Mas quem foi o gênio perspicaz desse anúncio?
Ele se apresentará amanhã, às16 horas.

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