Apertava a chave na mão. Com força para que ela não voasse, ultrapassasse a janela e caísse no pântano desencorajado. Quase derretia no calor da sua mão. Quase ficava torta, inutilizada de fechadura. Esquentava e pedia desistência. Na memória ainda guardava as ruas infinitas que o levavam a doce amizade de Azaleia, de cabelos pretos enormes. Conversavam sobre tantas coisas uma tarde inteira de dezembro e mais dezembros. Desenhava o sorriso largo da flor em seu caderno velho assim que chegava em casa. Para não esquecer. Ficava horas imaginado outras conversas para o fim do dia, pra lá daquele fim de rua estreita que terminava num riacho barulhento. Memórias.
No riacho gostava de lembrar das palavras que ela dizia, tão baixinhas igual poema que solta lágrima escondida. Ela o espremia, de longe, como se fosse limão, e o azedume saía fácil e só ficava o cheiro de coisa limpa no ar. O pensamento voava e escorria com a água e com o barulho que não parava. Com o tempo percebeu que percorria as ruas estreitas mais vezes do que podia. Ela sempre atendia com a voz de poema e ele sempre tinha mais conversas para jogar fora. Lá do alto como papéis picados, miúdos e vários. Fogos de artifício.
Passaram-se dezembros. O tempo martelava cada vez mais forte uma atitude precisa. Convidar para o riacho, quem sabe, e ouvir o barulho infindável das águas que morriam. Em meio às palavras infinitas daqueles fins de tarde, surgiu o silêncio. Ela congelou um sorriso pequeno, poético, no canto dos lábios finos. Cantos cortados de andorinha. Ele sentiu um aperto no peito que sufocava. Ficaram congelados. Queria sugerir o riacho, mas as palavras não saíam. O dezembro começou a mudar de cor. Um embaraço. Um nó. Sem perceber ele já passava as mãos no sorriso de andorinha dela. Ainda congelado. Desceu pelo pescoço e sentiu o calor da pele. Assim como as palavras, outra paralisia. O sorriso dela se desfez e foi trocado por respiração poética, que acelerou e acelerou. Os lábios se avermelharam. Ele colocou cada uma de suas mãos em seus ombros frescos de camiseta. Encostou os lábios nos lábios vermelhos da andorinha. Só encostou. Paralisia. Calor de dezembro. Fogos de artifício.
O riacho fazia barulho de infinito lá depois daquelas ruas. E nunca viu os dois juntos conversando o infinito de dezembro como imaginava. Nunca mais conversaram como antes. Nunca mais. Navegou no mais delicioso dos mares. Mas não ouviu mais a voz baixinha de poesia. Tudo se acumulou e escorreu por uma floresta imensa e escura.
A chave já estava incandescente na mão esquerda. Tantos dezembros pendentes. Percorreu ruas e mais ruas estreitas, pelo caminho inverso. A chave ainda servia na fechadura. Duas voltas. Estavam todos os galões enfileirados. Incandescência. Perfeito. Fogos de artifício. Sozinho. Andorinhas e andorinhas pelo céu.
No riacho gostava de lembrar das palavras que ela dizia, tão baixinhas igual poema que solta lágrima escondida. Ela o espremia, de longe, como se fosse limão, e o azedume saía fácil e só ficava o cheiro de coisa limpa no ar. O pensamento voava e escorria com a água e com o barulho que não parava. Com o tempo percebeu que percorria as ruas estreitas mais vezes do que podia. Ela sempre atendia com a voz de poema e ele sempre tinha mais conversas para jogar fora. Lá do alto como papéis picados, miúdos e vários. Fogos de artifício.
Passaram-se dezembros. O tempo martelava cada vez mais forte uma atitude precisa. Convidar para o riacho, quem sabe, e ouvir o barulho infindável das águas que morriam. Em meio às palavras infinitas daqueles fins de tarde, surgiu o silêncio. Ela congelou um sorriso pequeno, poético, no canto dos lábios finos. Cantos cortados de andorinha. Ele sentiu um aperto no peito que sufocava. Ficaram congelados. Queria sugerir o riacho, mas as palavras não saíam. O dezembro começou a mudar de cor. Um embaraço. Um nó. Sem perceber ele já passava as mãos no sorriso de andorinha dela. Ainda congelado. Desceu pelo pescoço e sentiu o calor da pele. Assim como as palavras, outra paralisia. O sorriso dela se desfez e foi trocado por respiração poética, que acelerou e acelerou. Os lábios se avermelharam. Ele colocou cada uma de suas mãos em seus ombros frescos de camiseta. Encostou os lábios nos lábios vermelhos da andorinha. Só encostou. Paralisia. Calor de dezembro. Fogos de artifício.
O riacho fazia barulho de infinito lá depois daquelas ruas. E nunca viu os dois juntos conversando o infinito de dezembro como imaginava. Nunca mais conversaram como antes. Nunca mais. Navegou no mais delicioso dos mares. Mas não ouviu mais a voz baixinha de poesia. Tudo se acumulou e escorreu por uma floresta imensa e escura.
A chave já estava incandescente na mão esquerda. Tantos dezembros pendentes. Percorreu ruas e mais ruas estreitas, pelo caminho inverso. A chave ainda servia na fechadura. Duas voltas. Estavam todos os galões enfileirados. Incandescência. Perfeito. Fogos de artifício. Sozinho. Andorinhas e andorinhas pelo céu.
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