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'Trecho III'

" (...)
Os cabelos dela eram incríveis. Loiros e ondulados, reluzindo a luz do sol. Casca de carambola doce. Boca de lábios grossos que pediam atenção. Olhos pretos vívidos. Seu rosto pedia insistentemente uma puxada de cadeira e horas de conversa sobre o tudo ou sobre o nada. Porque vê-la falando e gesticulando com as mãos de dedos pontudos era um espetáculo mais atraente do que qualquer pôr-do-sol, do que qualquer barulho de cachoeira imensa, do que qualquer jogada fatal no fim do jogo de cartas. Corpulenta e açucarada. Perfumada de flor. Estava sozinha no balcão do bar pequeno na esquina da rua principal. De frente única azul e saia jeans um pouco acima do joelho. Seus joelhos eram morenos e redondos. Ele, de cabelos pretíssimos, sentiu que devia arriscar uma pergunta. Uma pergunta que servisse de ponte e a levasse para seu lago experiente, quase cinquentando. Quando o viu, grudou suas jabuticabas oculares nos olhos deles. Aproximou-se e perguntou o nome dela. Angélica. Combinando com seus cabelos de sol celeste. No início, conversaram pouco. Ela observava o anel prateado na mão direita, girando-o com o polegar debaixo da mão. A pedra vermelha incrustada no metal subia e descia, rolando pelo dedo. Ele a observava como um menino ansioso que espera o que acontecerá na próxima página do gibi. Sentia-se enferrujado na aproximação. Talvez fosse a viagem, a mudança de ares, a irmã perguntadeira, os fatos que ficaram para trás no chão do apartamento tão distante da metrópole imensa. O perfume de flor já estava instalado em suas narinas. Dormiria sonhando com ele, mesmo passando meses depois daquele momento. Seu ar difícil de flor o encantava. Bebia cerveja em um copo comprido, com marcas de dedos anteriores. Seu batom desenhou uma rosa na borda. Acompanhou-a na bebida. Agora sentia-se mais relaxado, sem a obrigação de empurrar a porta para entrar. Ora, ele era um homem vivido, descansando na cidade pequena para aliviar suas urticárias citadinas. Ela parecia ansiosa. Terminou o copo em três goladas rápidas e anunciou a partida. De descansado, ele passou a animal com suadouros. Não podia perder a chance de se deliciar com aqueles joelhos morenos e redondos. Chamou-a para uma volta. A tarde se desmantelava em sexta-feira. 
(...)"

- Trecho do livro que escrevo -

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