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Depois do fim da tarde

Guardou todas as facas e cobriu a cabeça com o lençol. Medo de escutar outra vez o uivo misterioso do outro lado da rua, vindo de detrás de um enorme portão pintado de azul. Poderia ser um cão raivoso, decerto, mas o uivo tinha algo de humano, de dor, de desconsolo, de situação mal parida. Todos os dias esse medo lhe percorria a espinha e encontrava lugar em suas memórias do dia anterior. Uma pilha de memórias que se acumulava a cada dia, como papéis em uma repartição pública preguiçosa. Debaixo do lençol, imaginava como seria a criatura uivante, como seria sua pelagem e seus olhos. Assustadores os seus olhos debaixo do tecido de sua vergonhosa existência.
Todos os dias tentava arrumar a casa e não conseguia. Todos os dias tentava comer regradamente e não conseguia. Todos os dias pensava no pior. Que o pior pudesse acontecer dali a poucos segundos. Que se ele não alinhasse todos os fios da faca na gaveta, o cão-humano uivaria sua pena, como a mais terrível do universo. Os uivos eram diários. O portão azul da casa velha nunca se abria. Não sabia quem morava lá. Pensava em jogar comida para dentro do portão com medo de a fera se esvair em fome. Porque morrer de fome deve ser algo assustador. Assustado, desistia da ideia, e voltava para a casa, onde morava só, para passar o polegar e o indicador no fio de cada faca que guardava nos armários.
Teobaldo era febre viva que clama por ajuda. Piorava a cada ano, a cada mês, a cada dia, a cada segundo. Suas marcas da vida eram profundas, e podiam ser vistas pelo lado de fora de sua camisa. Tornou-se amigo do lobisomem por compaixão. A solidão coloca o homem em atitudes inimagináveis. Não sabia quem morava na velha casa, mas sabia que atrás de seus muros vivia um animal angustiado por sua vida presa em uma jaula. Sabia que detrás de seus muros vivia um homem angustiado por sua vida de solidão. Queria liberdade e companhia, como Teobaldo.
Debaixo do lençol imaginava-se rompendo o cadeado do portão com um machado. Desejava saber como era o olhar de um lobisomem. Quem sabe se atacado também não se tornaria um. Seria um amigo para compartilhar angústias. Teobaldo alinhava suas facas e concluía que nunca teve amigos. Amigos daqueles sinceros, para os quais se pode contar segredos sórdidos. Um dia, amolou o machado e prometeu a si mesmo romper o portão depois do fim da tarde. Era depois desse horário que começavam os uivos. Nem dormiu bem naquela noite, sonhando com seu novo amigo de pelagem e olhos assustadores. Nada o poderia assustar mais que sua própria vida. Quando entardeceu e saiu dos lençóis, espantou-se com o portão pintado de amarelo. Ainda esperou pelo primeiro uivo da noite. Mas ele não veio. Esperou mais um dia. Dois. Três. Uma semana. E mais três meses.
Teobaldo alisa as facas guardadas no armário da cozinha. Não pensa em usar nenhuma delas no dia seguinte. Nem nos próximos. Sua solidão uiva diariamente, dentro do peito. Não sente mais medo como antes. A pilha de memórias se desfez nos últimos dias. Teobaldo admira a cada dia no espelho sua pelagem e seus olhos assustadores.

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