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O mal de Analice

Sentada na cadeira de uma sala vazia, Analice é o vício que se repete por não ter mais aonde ir. Foram-se todos. Todos em um dia de lua quarto crescente. Crescia em seu peito avencas enormes de dias abandonados. Avencas selvagens. Que nascem à toa e morrem em um dia sem testemunhas. Seus olhos estavam secos, como a boca e os órgãos do corpo inteiro. A porta bateu com força. Ela nem se moveu. Escutou passos em sua direção. Não olhou para trás. Não se interessou em quem poderia ser. Todos se foram em um dia de lua de quarto crescente. Estava só com os pés sobre o chão imundo e frio. Um cheiro de cigarro estacionou em suas narinas. Imaginou quem poderia ser. Cheiros sempre a apunhalavam o coração, abrindo arquivos emperrados de vinte anos ou mais. Cheiros eram deuses que desciam a terra, esfregando-lhe no nariz quadros com pinturas reconhecíveis. Pinturas aceitáveis de terra firme. Pinturas medonhas de mares impossíveis. Sentiu uma mão morna sobre seu ombro esquerdo. O tato não lhe trazia pinturas. O tato era esmagador da alma quando associado a memórias. Depois do estrago, só restava corpo pedindo abrigo. Corpo mole, vazio, vulnerável. A mão deslizou por suas costas e estacionou atrás da nuca. Parecia mais quente. O corpo mais próximo. O cheiro de cigarro bem definido. Com olhos fechados pelo cansaço, não moveu um músculo sequer. Esperava pela voz. Pela primeira palavra. O mal de Analice era nunca iniciar uma conversação. Era esperar do outro o primeiro passo, o primeiro sinal, o primeiro toque. Esquecia que o outro também poderia estar cansado, com músculos paralisados e boca inerte. Analice ansiava por algo da vida. E esse algo não chegava. O que restava era sempre um cheiro de cigarro. E uma noite inteira de olhos fechados e sensações embriagantes. O mal de Analice era nunca conversar com quem sempre aparecia em meio a sua solidão, estacionando a mão em sua nuca.

Em um gesto apressado, colocou sua mão gelada sobre a mão quente dele. Talvez fosse um pedido de socorro. Ou um aceno automático. Seu corpo estava mole e cansado. A cadeira no meio do salão era o começo de uma longa noite. Ele a quis levar para casa. Ela recusou com voz quase inaudível. Ele insistiu. O mal de Analice é achar que estar só é o melhor caminho e que seus sentidos lhe bastam. O mal dele é sempre procurar Analice. Um quarto crescente estacionado na mesma fase. A paciência é da cor do fundo de um rio traiçoeiro.

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