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Já era noite. As mesmas ruas diante dos olhos pequenos e pretos de Soraia. Nem percebeu o dia se escondendo atrás dos prédios. A fome não voltaria mais até o amanhecer seguinte. Ela se alimentava na veia de dúvidas e medos. Perguntou quanto era e a moça, que nem percebeu as horasem que Soraia
esteve colada à cadeira, deu o troco mecanicamente sem olhar em seus olhos.
Mais um dia terminava e Soraia apertava em suas mãos o dinheiro valioso que
tinha e o embrulho pequeno surrado. Enquanto saía cruzou na porta com uma moça
de baixa estatura, longos cabelos loiros e sobrancelhas pretas grossas. Seu
cabelo tinha cheiro de chá de camomila. Soraia ficou parada, observando-a por
uns largos minutos a comprar cigarros e três pães de sal. Tinha a boca
rosa-choque e acendeu o cigarro ali mesmo. Estragaria o perfume dos cabelos
lisos com aquela fumaça toda. Seus olhos se encontraram após o troco. A loira
reparou em Soraia os olhos secos e fundos, de quem sofria de mal incurável.
Lábios rachados, cabelos empoeirados, assim como toda a roupa, desgrenhada. Não
entendeu os motivos, mas teve pena dela. Aproximou-se da magrela e perguntou
como se chamava. Soraia não lhe parecia ser nome de mendiga. Ficou em dúvida se
estava perdida, se era doente, se era pedinte, se era confiável. Soraia não
tinha força na garganta nem para respostas simples. Trazia os ombros pesados como
se equilibrasse contêineres. A loira ficou meio com medo, mas a vida já havia
colocado em seu caminho pessoas que a ajudaram em tormentas indescritíveis. Era
a hora de ajudar alguém, um feito inédito na sua jornada. Uma mulher tão magra,
com cara de assustada, não poderia fazer mal a alguém. Saíram da padaria lado a
lado. A loira fazia muitas perguntas. Soraia estava fraca para respondê-las.
Não se sentia bem cheirando fumaça de cigarro, mas era um alívio ouvir a voz de
quem aparentava bondade. Caminhava e Soraia nem sabia para onde. Em algumas
perguntas assentia com a cabeça. Em outras ficava muda. E dobravam esquinas e
atravessavam ruas. Às vezes Soraia sofria com uma pontada no estômago imaginando
a loira indo embora e ela ficando ali, sozinha, dormindo no beco sem saída dos
catadores de papelão. Não respondeu sobre o que carregava na sacola apertada
entre os dedos. Medo de ser roubada. Pararam em frete à entrada de um prédio
antigo em uma rua estreita. A loira se despediu de Soraia. Deu-lhe um pão do embrulho
e recomendou que se cuidasse. A matusquela concordou e a viu trancando a porta
mansamente. Uma pontada lhe afligiu o esôfago. Era noite. E não sabia mais
fazer o caminho de volta até o beco sem saída. A metrópole era um dragão
fumegante assustador. Estava em terras desconhecidas. Paralisada, sentou ali
mesmo na calçada. Escondeu o embrulho dentro da camisa surrada. Não pensava em nada. Suas sinapses se
enferrujavam a cada virada da ampulheta.
(...)
- Trecho do livro que escrevo -
Já era noite. As mesmas ruas diante dos olhos pequenos e pretos de Soraia. Nem percebeu o dia se escondendo atrás dos prédios. A fome não voltaria mais até o amanhecer seguinte. Ela se alimentava na veia de dúvidas e medos. Perguntou quanto era e a moça, que nem percebeu as horas
(...)
- Trecho do livro que escrevo -
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