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'Trecho IV'

(...)
Já era noite. As mesmas ruas diante dos olhos pequenos e pretos de Soraia. Nem percebeu o dia se escondendo atrás dos prédios. A fome não voltaria mais até o amanhecer seguinte. Ela se alimentava na veia de dúvidas e medos. Perguntou quanto era e a moça, que nem percebeu as horas em que Soraia esteve colada à cadeira, deu o troco mecanicamente sem olhar em seus olhos. Mais um dia terminava e Soraia apertava em suas mãos o dinheiro valioso que tinha e o embrulho pequeno surrado. Enquanto saía cruzou na porta com uma moça de baixa estatura, longos cabelos loiros e sobrancelhas pretas grossas. Seu cabelo tinha cheiro de chá de camomila. Soraia ficou parada, observando-a por uns largos minutos a comprar cigarros e três pães de sal. Tinha a boca rosa-choque e acendeu o cigarro ali mesmo. Estragaria o perfume dos cabelos lisos com aquela fumaça toda. Seus olhos se encontraram após o troco. A loira reparou em Soraia os olhos secos e fundos, de quem sofria de mal incurável. Lábios rachados, cabelos empoeirados, assim como toda a roupa, desgrenhada. Não entendeu os motivos, mas teve pena dela. Aproximou-se da magrela e perguntou como se chamava. Soraia não lhe parecia ser nome de mendiga. Ficou em dúvida se estava perdida, se era doente, se era pedinte, se era confiável. Soraia não tinha força na garganta nem para respostas simples. Trazia os ombros pesados como se equilibrasse contêineres. A loira ficou meio com medo, mas a vida já havia colocado em seu caminho pessoas que a ajudaram em tormentas indescritíveis. Era a hora de ajudar alguém, um feito inédito na sua jornada. Uma mulher tão magra, com cara de assustada, não poderia fazer mal a alguém. Saíram da padaria lado a lado. A loira fazia muitas perguntas. Soraia estava fraca para respondê-las. Não se sentia bem cheirando fumaça de cigarro, mas era um alívio ouvir a voz de quem aparentava bondade. Caminhava e Soraia nem sabia para onde. Em algumas perguntas assentia com a cabeça. Em outras ficava muda. E dobravam esquinas e atravessavam ruas. Às vezes Soraia sofria com uma pontada no estômago imaginando a loira indo embora e ela ficando ali, sozinha, dormindo no beco sem saída dos catadores de papelão. Não respondeu sobre o que carregava na sacola apertada entre os dedos. Medo de ser roubada. Pararam em frete à entrada de um prédio antigo em uma rua estreita. A loira se despediu de Soraia. Deu-lhe um pão do embrulho e recomendou que se cuidasse. A matusquela concordou e a viu trancando a porta mansamente. Uma pontada lhe afligiu o esôfago. Era noite. E não sabia mais fazer o caminho de volta até o beco sem saída. A metrópole era um dragão fumegante assustador. Estava em terras desconhecidas. Paralisada, sentou ali mesmo na calçada. Escondeu o embrulho dentro da camisa surrada. Não pensava em nada. Suas sinapses se enferrujavam a cada virada da ampulheta.
(...)
- Trecho do livro que escrevo - 

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