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Danger

Chegou em casa cheia de lama nos pés. Havia perdido os sapatos pelo caminho depois do temporal. A primeira coisa que fez foi tomar xarope e abrir o dicionário de francês. O que estava escrito no portão da garagem da última rua do bairro Ária era o que a intrigava. A casa já estava cheia de pegadas de terra. O xarope não a deixaria adoecer e o banho poderia ser adiado para mais tarde. Procurou no dicionário a letra P. Percorreu praticamente todas as palavras. A ausência da palavra buscada a fez ler até o desnecessário. Frustrada, despedaçou o livro golpeando-o na parede. As mãos sem lama encharcaram-se nas lágrimas.
A garagem não era aberta por pelo menos vinte anos. Quase ninguém morava mais por perto. Ária era um bairro de poucos habitantes. Quase todos se foram pela violência. A palavra em francês pichada na porta de metal em tinta verde fosforescente era a única coisa que coloria Ária. E ela percebera isso quando passou de ônibus em um dia qualquer.
No começo, intrigou-se pela palavra. Não tinha dicionário de francês - imaginava que aquilo era francês - e deixou pra lá. Depois pensou na tinta fosforescente, muito na moda no início dos anos 90, assim como o laranja vibrante. Queria saber o motivo de aquela ser a única pichação no bairro, com aquela cor e aquela letra. Talvez fosse o que restou de um bairro reconstruído e repintado. Mas Ária era tão velho e abandonado. Pensou ainda em não pensar em mais nada. Porque Ária não era a terra onde nascera. Não tinha amigos por lá. Nada a ligava ao Ária. Era distante e imundo.
Um dia não resistiu e desceu no ponto de ônibus que ficava mais próximo da garagem. Precisou se aproximar e passar o indicador pela tinta fosforescente. Uma palavra gigante que ocupava toda a porta de ferro. Quando viu um morador entrar em um portão de uma casa velha na mesma rua, correu e o perguntou sobre de quem era a garagem. Soube que a garagem não era de ninguém. Estava abandonada há muitos anos e todos diziam que estava cheia de quadros pintados por um homem misterioso que os guardou ali e nunca mais apareceu.
Voltou para o portão da garagem e passou a mão pelo verde fosforescente da pichação. Não havia nenhuma janela no cômodo para investigação. A fechadura estava enferrujada. Estava cada vez mais curiosa. As telas pintadas, depois de vinte anos, deveriam estar apodrecidas. Totalmente perdidas. Ninguém sabia nada sobre o homem. E ela se perguntou uma noite inteira se fora ele mesmo a pintar a palavra francesa no metal do portão. Uma despedida aos quadros. Ou um aviso sobre algo.
Na manhã seguinte comprou o dicionário. Chovia forte, mas não podia deixar a busca para depois. Custou caro, mas sua curiosidade morreria naquela tarde, estrangulada. À medida que avançava pelas ruas, a tempestade aumentava e a rua se alagava. A água subiu centímetros. Uns quarenta. A duas ruas de casa, perdeu os sapatos enterrados no lamaçal da inundação já desfeita. Nada mais a perturbava a não ser a palavra verde da porta da garagem. Depois do xarope e do dicionário na parede, soluçava.
Decidiu esquecer o caso por uma semana. Acreditava estar louca. Ária era um bairro distante, sujo, que trazia assombrações para vidas inocentes. Resolveu visitar o lugar pela última vez. Como um túmulo lacrado que deve manter seu morto em paz. Ao descer do ônibus, percebeu uma movimentação em frente. Todos se acotovelavam diante do portão pichado da garagem. Subiu e desceu o pescoço até encontrar uma brecha entre as dezenas de curiosos. Conseguiu avistar a ponta de um lençol estendido no chão. Era um corpo coberto. Afastou-se assustada, até chegar à calçada do outro lado. Ao ler a palavra de longe, ela começava com a letra D. Danger. Ária nunca mais soube de sua presença.

Comentários

  1. Olá, meu nome é diego e gostaria de saber se voc esta interessada em fazer parceria com meu blog protegomaxima.blogspot.com

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