Pular para o conteúdo principal

Naipe de espadas

Depois que a cartomante disse que ela teria um dia ruim pela frente, marcado por um encontro inesperado e terrível, não foi mais a mesma. Odiava as cartas de espadas. Sempre havia tensão, rompimento e ódio atrás de cada uma delas. Já estava arrependida de ter ido à dona Ivetina. A cabeça latejava e as mãos suavam. Queria ter visto mais o naipe de copas, com seus encontros, compromissos, novas relações de amor ou amizade... Mas em quase todo o jogo, estava lá a porcaria das cartas sombrias de espadas.
A cada esquina, um solavanco no peito; a cada semáforo, uma fisgada na têmpora; em cada buzina que ouvia, sentia o calafrio do atropelamento, da vida se esvaindo mansa, como uma chaleira que esfria. Sentia os pés flutuando sobre o asfalto. O corpo dormente ansiava pelo pior. A cartomante era experiente, com suas cartas encardidas e meio amassadas. Muito uso diante de quem quer dominar o destino. Sempre ouvia coisas bonitas e férteis - novos projetos e estudos quando paus aparecia ou um dinheiro extra quando ouros dava as caras. Agora ela se via encostada na parede, espremida por espinhos de terror. A velha não disse como seria esse encontro. Não revelou detalhes. Talvez fosse um truque para ela voltar no dia seguinte e pagar mais vinte pratas pelo serviço. O incenso de patchouli não caíra bem nas narinas.
Ao passar em frente ao beco do Olavo, sentiu algo se mover atrás de uma montanha de sacos de lixo amontoados. Seguiu adiante, mas uma mão invisível a puxou pela gola, e ao se dar conta, já estava buscando com os olhos, à distância, o que podia estar se passando. Ao lado da montanha fétida, viu uma ratazana morta há pouco tempo. Os sacos se moviam. Não era algo que estava atrás, era algo que estava dentro de algum deles. Sem perceber outra vez, estava abrindo um a um todos os sacos plásticos. Podia ser um filhote de cachorro, ou quem sabe um bebê! Encontro inesperado e terrível do naipe de espadas. Pensava no absurdo de ter o hábito de consultar cartomantes desde a adolescência. Isso nunca a levaria a lugar algum. Suas mãos tremiam. Gostava das cartas quando eram corações vermelhos, losangos ou pés-de-pinto. Não o naipe maldito de espadas! E quase todas elas apareceram. Oito, sete, dois, Ás... O começo, o meio e o fim de toda uma tragédia. O que seria dela?
Ao desamarrar o último saco, com as mãos imundas, enxugou a testa e não encontrou nada. A ratazana fedia com o arder do sol entrando pelo beco no final da tarde. Sentiu uma mão invisível puxando sua gola para fora do beco. A montanha pútrida já não se mexia mais. No fundo de seus pensamentos, queria que algo terrível tivesse acontecido de fato no beco. Para consumar as cartas. Para consumar sua opinião sobre espadas. Para consumar sua ida à cartomante mais vezes. Para acabar logo com toda aquela história. A mão invisível não surgiria mais até o fim do dia. Ela não dormiu bem à noite. De manhã, bem cedo, seu horário estava marcado com a dona Ivetina. Cartas na mesa às oito e trinta da manhã.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Cacos de ampulheta

  O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão. O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes. De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língua s...