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A observação

A tarde cai cinza do lado de fora de uma janela qualquer. O vento remexe a poeira dos tempos não chuvosos. O verde da mata fica escuro. Uma mancha enegrecida que se expande sobre a terra. Uma casa ali e outra lá acendem suas lâmpadas amarelas. É o fim do dia de tantas pessoas que não conhecemos, com quem nunca conversamos e que devem ter suas histórias penosas. Se alguém dessas casas chega à janela e observa a tarde cinza, considerará da mesma forma que quem está do outro lado é um desconhecido, que acabou de acender a lâmpada quente ou fria.
Observando o tempo pela janela, uma coisa é certa: todos se tornam iguais e sentimos uma ponta estranha de paz no coração. Quem passa lá embaixo pelas ruas já umedecidas pela chuva mole, que se inicia depois de tantos dias à espera, acrescenta à visão do observador mais pessoas sobre a massa desconhecida. Mas quem é aquela mulher que carrega um guarda-chuva vermelho escuro, cheia de sacolas de mercado, que parece ter pressa para fugir do fim de tarde cinza? Ela caminha a passos largos, que fazem ruído na calçada, para chegar logo em casa. A casa deve ficar ao final da rua. A mulher não é totalmente desconhecida. Apesar de um rosto encoberto pelo guarda-chuva, seu modo de andar e suas roupas largas são reconhecíveis de outras observações pela janela. Talvez em dias mais claros, mais ensolarados, em que pessoas são mais vivas e identificáveis. A tarde cinza jogou sobre todos uma cor indefinida.
A mulher abriu o portão da casa e entrou. Colocou as sacolas sobre a mesa da cozinha. Deixou o guarda-chuva aberto na varanda que dá para o quintal. Tirou os sapatos e calçou os chinelos. Os pés ainda estavam secos, pois andara pouco sob a chuva melada. Dali a pouco chegariam os outros, mas não agora. Ela guarda as compras nos armários e não desgruda os olhos da janela que fica de frente à janela do vizinho da esquerda, menor que a sua, mas perfeitamente observável. Lá havia uma mesa, com um pote de margarina aberto, uma faca suja de margarina e uma xícara vermelha sem pires. Tudo sobre uma toalha xadrez de verde com preto. Isso estava assim há mais de 24 horas. Ela imaginou que o vizinho pudesse ter viajado. Uma mesa de cozinha nunca fica com seus objetos paralisados, por mais que o morador da casa seja um só. É preciso tomar café todos os dias. Deve ter sido uma viagem rápida. Não o via sempre, e assim se perdeu nas considerações do relógio, para fechar suas hipóteses. 
Terminou de guardar todas as compras nos armários. Dali a pouco chegariam os outros, filhos e marido. No dia seguinte seria observada pela janela menor ao lado. De pé, ela mexia em uma panela no fogão com movimentos vigorosos e compassados. Os cabelos presos na nuca às pressas. O avental com a cor laranja já desbotada. Parecia estar sozinha em casa. Atrás dela a porta de um dos armários estava aberta, com uma pilha de latas à mostra. As vermelhas de extrato de tomate e as verdes de ervilhas. As conclusões se tiram de acordo com as vivências adquiridas. Ela desligou o botão do fogo e sumiu da visão da janela. Estaria na pia, decerto. 
Era meio-dia, e ele sairia para almoçar fora. Ela notou, antes de mexer na panela vigorosamente, que a toalha xadrez de verde com preto estava limpa e bem esticada sobre a mesa. Concluiu que ele voltou de viagem. A chuva melada recomeçara. A tarde cairia cinza outra vez, embaçando rostos e histórias, impedindo observações detalhadas. Mas elas sempre continuam, a despeito de tudo. 

Comentários

  1. A sua capacidade de descrever torna a leitura deliciosa! Parabéns! Gosto muito dos seus textos!

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