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No vagão

Sentada em um dos bancos surrados do trem que parte do subúrbio para o centro de Paris, observo pessoas como se fossem pinturas admiráveis, mesmo que não tenham nada de extraordinário. A senhora que viaja bem à minha frente olha  a paisagem pelo vidro da janela, perdida em seus pensamentos. É muito raro alguém te olhar nos olhos quando se viaja por essas terras. Estão todos absortos, flutuantes, em seu cotidiano mesmicento. Eu noto todos e me fixo no olhar deles. A tal senhora que viaja diante de mim tem roupas escuras, mesclando preto com marrom. Do seu lado direito, percebo uma sacola pequena de papel com um pão. A ponta do pão aparece do lado de  fora, presenciando o ar fechado de multidão misturada. Suas mãos estão ressecadas. Seus cabelos, com alguns fios brancos, estão opacos. Seu rosto, sem maquiagem, tem traços fortes. Em momento algum ela olhou para mim. Mirava os telhados do lado de fora. Corriam um depois do outro, enquanto sentíamos dentro do vagão o seu trotar sobre os trilhos. Telhados amarelados, em casas altas, que parecem de bonecas de tão bonitas. Telhados inclinados para não acumular neve. Vez ou outra podíamos ver árvores de corpo fino, apontadas para o céu. Tenho dificuldades em identificar nomes de árvores. Desta forma, atrelo-me às pessoas.
À esquerda da senhora está um homem de uns cinquenta anos. Ele está trajado de preto com cinza. Ninguém tira os seus casacos dentro do trem, apesar do ar espesso de calor e cheiros humanos. Lê o MetroNews, mas parece não estar muito interessado em notícias. Quer é que o tempo passe logo sobre os trilhos para resolver logo o que tem pendente. Na virada de página, vi que estava lendo sobre um crime em alguma cidade pequena. Depois de um cinco minutos, dobrou o periódico e ficou com o olhar perdido no corredor do trem. Talvez também fosse observador de pessoas, mas olhares perdidos nunca funcionam para tal fim.
"Attention à la marche en descendant du train", escutamos, acompanhado de um apito de alerta. O senhor do jornal desce, outra pessoa toma seu lugar, mas atenho-me à senhora com a sacola do pão. Ainda está com o olhar perdido na janela. Na mão esquerda, vi um anel prateado fosco no dedo anelar. Sem pedra e sem brilho. Não sei o sentido de se usar um anel sem enfeite, a não ser que seja uma aliança. Concluo que aquela era a aliança da senhora com alguém. Meio desbotada e sem graça, mas deveria ter algum significado para ela. Gosto de pensar nos compromissos de lealdade que cabem em um anel. Fico pensando se ela notou que na minha mão esquerda há uma aliança dourada reluzente. Que me orgulho de um compromisso de fidelidade. Mas o olhar na janela não se move. A sacola de pão tomando todos os ares infectados à sua volta. A família deve ser pequena, já que levava apenas um pão pequeno na sacola. Talvez todos os filhos já tenham se casado. Teria netos, decerto. Eu ainda não consegui ter filhos.
"Attention à la marche en descendant du train". Vou descer na próxima estação. Gostei da expressão dessa senhora. Parece ser amigável. Deve ter conversas simpáticas com os vizinhos. Talvez saiba fazer crochê como minha mãe. Invejei-a por morar em Paris e falar francês, uma língua tão bonita. Queria ter conversado com ela, mas meu francês raso não me levaria muito longe. Em momento algum ela olhou para mim. Na verdade, acredito que a única observadora do vagão era eu. Adoro mar de gente por morar tão longe no alto das montanhas.
"Attention à la marche en descendant du train". Hora de me levantar. Mais um dia em Paris. A senhora continua em seu trajeto. Até hoje me lembro das marcas ressequidas que ela levava nas mãos. Nunca mais a verei em minha vida.


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