Pular para o conteúdo principal

Trecho V

(...)
No dia do embarque, Soraia tremia da cabeça aos pés. Trazia um aperto na nuca e uma fogueira na boca do estômago. Os pés flutuavam temerosamente na incerteza da volta pra casa. Até ali, o guepardo não a atacara. Havia sumido entre os canos de descarga da cidade. Talvez a espreitasse na rodoviária, disfarçado em alguma fila de guichê. Fábia prometeu que ficaria com ela até a entrada no ônibus. Olhava somente para frente, sem dizer uma palavra. A companheira também não puxou assunto, pensando no cochilo da tarde para se garantir na batalha noturna. Enfim, o velho ônibus de carcaça amarelada encostou-se à plataforma 12. Um abraço magro de despedida e sussurros de agradecimento, manhã amarga de decisões e medos. Fábia sentiu um aperto dentro do tórax e foi ficando pequenina na plataforma, o ônibus se afastava. Soraia manteve-se tensa durante a viagem inteira. Salva do salto do guepardo, que seria um fantasma dali pra frente, cravado em memórias aterrorizantes, mas que teria que perder sua força à medida que os dias passassem entre roupas no tanque, louça na pia e vassoura no assoalho. Era o que mais queria para seu futuro esquálido, pedir abrigo do passado nefasto. A cidade grande fora um parêntese doloroso, um malfeito. Uma caridade que se transformara em penitência. Chegar à pequena casa e contar sobre o mal-entendido seria seu primeiro ato, uma vida de pequenas ações-reações. Seu plano mais simples, dizer a verdade, acima de tudo, para nunca mais reviver tudo aquilo. Logo depois, retornar a sua vida pequena, como era bem antes. Era tudo simples, estava segura. As árvores, passando repetidamente na janela, fizeram-na dormir um sono de sonâmbulo.
       Acordou faltando vinte minutos para onde desceria, o embrulho marrom ainda escondido entre as pernas finas. Ao descer, o vento empoeirado deixou marcas na sua longa saia azul. Seguir o caminho reto até a pequena morada de telha encardida. O cachorro avisaria da sua aparição, certo como cravo no doce de laranja. Tremia menos naquele instante. Já a língua, ansiosa, colada no céu da boca.
(...)

- Trecho de meu romance a ser publicado em 2015 -

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Mesmíssimo

  Ama-se o domingo de manhã O sol desbotado  O avental verde respingado  Um pouco queimado  Da rotina arrastada Ama-se o tempo repetitivo De cada mesmíssima coisa do primeiro dia Da semana  Domingo Ama-se  O cheiro do limão fresco A folhinha perdida no sábado O avental verde ainda queimado O tempo frio que pede o não fazer nada Ama-se.