(...)
(...)
- Trecho de meu romance a ser publicado em 2015 -
No dia do
embarque, Soraia tremia da cabeça
aos pés. Trazia um aperto na
nuca e uma fogueira na boca do estômago.
Os pés flutuavam
temerosamente na incerteza da volta pra casa. Até
ali, o guepardo não a atacara. Havia
sumido entre os canos de descarga da cidade. Talvez a espreitasse na rodoviária, disfarçado
em alguma fila de guichê. Fábia prometeu que ficaria com ela até a entrada no ônibus.
Olhava somente para frente, sem dizer uma palavra. A companheira também não puxou assunto, pensando
no cochilo da tarde para se garantir na batalha noturna. Enfim, o velho ônibus de carcaça
amarelada encostou-se à plataforma 12. Um abraço magro de despedida e sussurros de agradecimento, manhã amarga de decisões
e medos. Fábia sentiu um aperto
dentro do tórax e foi ficando
pequenina na plataforma, o ônibus se afastava.
Soraia manteve-se tensa durante a viagem inteira. Salva do salto do guepardo,
que seria um fantasma dali pra frente, cravado em memórias aterrorizantes, mas que teria que perder sua força à medida que os dias
passassem entre roupas no tanque, louça
na pia e vassoura no assoalho. Era o que mais queria para seu futuro esquálido, pedir abrigo do passado nefasto. A cidade grande
fora um parêntese doloroso, um malfeito.
Uma caridade que se transformara em penitência. Chegar à pequena casa e contar sobre o mal-entendido seria seu
primeiro ato, uma vida de pequenas ações-reações. Seu plano mais simples, dizer a verdade, acima de
tudo, para nunca mais reviver tudo aquilo. Logo depois, retornar a sua vida
pequena, como era bem antes. Era tudo simples, estava segura. As árvores, passando repetidamente na janela, fizeram-na
dormir um sono de sonâmbulo.
Acordou faltando vinte minutos para onde desceria, o
embrulho marrom ainda escondido entre as pernas finas. Ao descer, o vento
empoeirado deixou marcas na sua longa saia azul. Seguir o caminho reto até a pequena morada de telha
encardida. O cachorro avisaria da sua aparição, certo como cravo no doce de laranja. Tremia menos
naquele instante. Já a língua, ansiosa, colada no céu da boca.(...)
- Trecho de meu romance a ser publicado em 2015 -
Comentários
Postar um comentário