Na Rua das Goiabeiras, ele quase enfartou ao
colocar a mão no bolso da camisa e perceber que o embrulhinho não estava lá.
Que suadouro. Fez o trajeto de volta até chegar em casa e com a face branca
começou a revirar as primeiras gavetas da cômoda. A mulher não podia pegá-lo
ali, todo sôfrego, a fuçar em toalhas alvas dobradas. Fechou as gavetas.
Abriu-as outra vez na esperança da olhadela mal dada. Perda de tempo. Apalpou o
bolso já por instinto. O embrulhinho não estava lá. Caiu na rua, decerto. Saiu
correndo, triplicando o suor colado no corpo. Andou como cão farejador que não
levanta os cílios. Percorreu tudo, até parar em frente outra vez diante da
palmeira da Rua das Goiabeiras, onde tudo começou. Nada na calçada. Nada.
Foi para o trabalho mesmo assim. Talvez
tivesse deixado-o sobre a mesa. Foi consolando-se com mentiras de algodão-doce,
até sentar-se diante da máquina de escrever e constatar que o embrulhinho
sumira de fato. Datilografou tudo errado naquele dia. O cesto encheu-se de
papel amassado. Até café respingou na camisa bem passada. Abriu e fechou todas
as gavetas da mesa de cinco em cinco minutos. Até dar as cinco no relógio
grande da parede encardida da repartição. Quem sabe no trajeto de volta ele
encontraria o embrulhinho tão particular. Quem poderia querer ficar com ele,
tão pequeno e sem importância.
Em casa a mulher o estranhou. Roupa suja de
café e cabelo desgrenhado. Cara de quem viu lobisomem. Pálido. Aquele não era
seu marido. Jantaram sem diálogos. Pensava nas gavetas da cômoda. Abriria as
outras também, além das duas verificadas pela manhã. Faria enquanto a mulher
estivesse prendendo os cabelos antes de dormir. Empurrou uma a uma das gavetas
para fora, com a linguinha entre os lábios. Sem ruídos. Passou a mão em cada
dobra de lençol, fronha e toalha perfumados. Fez isso com todos os panos
dobrados em todas as gavetas. Olhou até entre os perfumes sobre a cômoda. Nada.
Dormiu gelado. A mulher suspeitava de febre. Teve pesadelos horríveis. Seu
futuro estava perdido.
Tomou café da manhã com olhos esbugalhados.
A mulher quis chamar o médico. Ele fez que não. Parecia mais velho, com cara de
lobisomem. Na Rua das Goiabeiras lembrou que era sexta-feira. Dia da entrega do
embrulhinho. Deixá-lo na repartição, para melhor segurança, até o ato da
entrega, falhara. Agora tinha o coraçãozinho aos saltos. Pensava em não
derrubar café na camisa. E em manter os cabelos alinhados. Naquele dia
trabalhou muito. Houve vários imprevistos. Esqueceu que era dia de ir mais cedo
para substituir o colega que faltaria. Cólicas renais. Andava esquecido.
Recomendaram-lhe jabuticabas para refrescar a memória. E sopa de cebola antes
de dormir. Isso o causou náuseas. Deixara o colega na mão. O serviço acumulara.
O embrulhinho feito órfão no mundo. Almoçou pouquinho. Só um terço do bife. Só
meia folha da alface. Tentava baixar mais as pálpebras para não mostrar os
olhos esbugalhados de terror. Voltou para o trabalho e avisou a mulher que era
dia de serão. Prometeu a si mesmo passar na farmácia depois do expediente para
ver o remédio da memória. Dali em diante escreveria bilhetinhos para se lembrar
das tarefas. Só não poderia se esquecer de escrever os bilhetinhos. Imaginava o
embrulhinho aberto e a cara de espanto de quem o abrisse. Tão pequenininho e
revelador. As mãozinhas tremiam com os pensamentos. Disseram a ele que mãos
geladas eram lombrigas. Quem sabe mais jabuticabas não o fariam bem? Terminou o
serviço às sete da noite. Que dia longo e sofrido. Olhou no espelho do pequeno
banheiro e viu que o cabelo estava alinhado e que os olhos estavam na posição
normal. Também verificou se havia café na camisa. Depois se lembrou que nem
tomara café. Jabuticabas e sopa de cebola cortaram seu apetite.
De volta às ruas, percorreu o trajeto, feito
cão farejador. Nada de embrulhinho. Bateu na janela em frente à palmeira da Rua
das Goiabeiras. Uma voz abafada respondeu lá de dentro que o ouvia bem. De
fora, apenas respondeu que naquele dia não teria poesia e doce de amêndoa. A
voz chorosa indagou o porquê. Ele, com coraçãozinho apertado, disse que depois
explicaria. Apressou o passo e em casa a mulher já estava com os cabelos presos
para dormir. Pediu a janta e ela colocou sobre a mesa um prato tapado com o outro,
e lhe deu até amanhã. A sós, pensava onde estaria o embrulhinho. Não estava em
casa, nem no trabalho, nem jogado na rua. Nenhum vizinho encontrou. Ninguém.
Mais uma vez verificaria cada espaço das gavetas, entre as roupas lavadas,
entre as esperanças brancas perdidas. Emagrecia a olhos vistos. O rostinho
estava fundo nas maçãs. Na sala, a vela acessa quase se apagando em frente ao
santo fazia figura de lobisomem nas paredes. Não podia orar pelo embrulhinho.
Tinha vergonha do santo. Tinha vergonha da falta de memória. E nessa
sexta-feira não se lembrou de escrever nenhum bilhetinho para refrescar as
tarefas do dia. Era um homem sem jeito, sem sorte e sem embrulhinho. Dormiu
como pedra. A mulher já se acostumara com seu ar perdido de menino que sempre
só observa os outros brincarem. Estranhou que ele chegara cedo ontem.
Sexta-feira era dia de serão que durava até as onze da noite.
Hoje faria diferente. Disse que precisava
sair, ainda de manhãzinha. Era melhor que ele respirasse ares puros matinais.
Depois do café, percorreu o mesmo trajeto do trabalho até chegar à Rua das
Goiabeiras. Bateu dois soquinhos na janela em frente à palmeira. A voz abafada
lá de dentro custou a responder. Mais dois soquinhos. Escutou o ranger das
dobradiças da porta. Depois de olhar para as duas direções da rua, entrou sem barulho
no piso. Na sala, ela, ainda de cabelos com grampos, apertava-o em abraços
sufocantes, dava-lhe beijinhos na testa e nas bochechas. Dizia que ele era a
sua amendoazinha favorita. Largaram-se no sofá. Ele, com os olhos esbugalhados,
não entendia nada. Ela, com o sorriso esbugalhado, disse que adorara a surpresa
deixada na janela em frente à palmeira, na Rua das Goiabeiras. Não merecia
surpresinha tão íntima. O embrulhinho estava lá, todo desfeito, sobre a mesinha
de centro.
Ai...e o que tinha no embrulhinho?
ResponderExcluirÓtimo texto!