No espelho, nossas avós parecem mais jovens do que quando a olhamos no fim do dia. Todas as rugas são marcas do que falaram, lutaram e vestiram. Todas as manchas na pele demonstram que "o sol nasce para todos". Não adianta aumentar o volume dos fones nas orelhas porque o inevitável é uma coruja reluzente que sorri para todos.
São repetições de nossas mães apoiadas em teorias de páginas mais amareladas. Vestiram um dia o que hoje não se usa mais. Tentam entender o que não havia em sua época. De fogão de lenha ou de extrema economia do gás. De andar de trem que não podia ser perdido porque o próximo viria só no dia seguinte.
Trazem ainda ideias econômicas, resquícios de um pós-guerra que nunca mais voltou. Apesar de a guerra ainda não ter saído dos próximos livros de história. O café deve ser economizado. Assim como os palitos de fósforo e o sabão em pó. E os papéis que embalam presentes. E as sacolas plásticas. E os vidros e latas vazios. Acumulam-se. Despencam-se.
Opinam sobre o que ainda podem opinar. Frases de luz. Ou silêncios mornos. Não se posicionam contra membros da família porque podem magoar outrem. São territórios suíços, neutros. São do tempo das fotos raras em preto e branco. Dos casamentos esfarelados que nunca se esfarelam. Dos filhos, muitos ou talvez não muitos, que são criados com pouco.
Algumas com tinta no cabelo, outras com muitos fios brancos à mostra. Olham acima de todos. Olham com medo, com previsões de quem já viu muitas e muitas vezes. Nasceram quando os tempos estavam mudados. Quando já existiam automóveis e aviões. Ruas largas e cidades minúsculas paradas no tempo. Quintais com almeirão e taioba. Galinhas ciscando.
A guerra rolava solta na Europa, e um medo estranho pairava no ar pelas ondas do rádio. Morando em casas com muros baixos, poucos vizinhos, confiáveis vizinhos. Todos conheciam todos. Todos se ajudavam. Todos eram amigos. Todos liam os jornais e os interpretavam ao seu modo. Cartas que demoravam. Demoravam muito.
A coruja reluzente anuncia que ser passado é destino do mundo. Muitas dessas mulheres já se foram. Como as que foram testemunhas de quando a guerra rolava solta na Europa. Quando eram crianças nos anos que Virginia Woolf lançava seus romances modernos. O século XX, tão modernoso. O século XXI, tão assustador. Se tivessem ficado, talvez não entendessem. Um dia a chuva rala cai mansa sobre inúmeras lápides. Alguém um dia escreverá sobre nossos reflexos nos espelhos.
São repetições de nossas mães apoiadas em teorias de páginas mais amareladas. Vestiram um dia o que hoje não se usa mais. Tentam entender o que não havia em sua época. De fogão de lenha ou de extrema economia do gás. De andar de trem que não podia ser perdido porque o próximo viria só no dia seguinte.
Trazem ainda ideias econômicas, resquícios de um pós-guerra que nunca mais voltou. Apesar de a guerra ainda não ter saído dos próximos livros de história. O café deve ser economizado. Assim como os palitos de fósforo e o sabão em pó. E os papéis que embalam presentes. E as sacolas plásticas. E os vidros e latas vazios. Acumulam-se. Despencam-se.
Opinam sobre o que ainda podem opinar. Frases de luz. Ou silêncios mornos. Não se posicionam contra membros da família porque podem magoar outrem. São territórios suíços, neutros. São do tempo das fotos raras em preto e branco. Dos casamentos esfarelados que nunca se esfarelam. Dos filhos, muitos ou talvez não muitos, que são criados com pouco.
Algumas com tinta no cabelo, outras com muitos fios brancos à mostra. Olham acima de todos. Olham com medo, com previsões de quem já viu muitas e muitas vezes. Nasceram quando os tempos estavam mudados. Quando já existiam automóveis e aviões. Ruas largas e cidades minúsculas paradas no tempo. Quintais com almeirão e taioba. Galinhas ciscando.
A guerra rolava solta na Europa, e um medo estranho pairava no ar pelas ondas do rádio. Morando em casas com muros baixos, poucos vizinhos, confiáveis vizinhos. Todos conheciam todos. Todos se ajudavam. Todos eram amigos. Todos liam os jornais e os interpretavam ao seu modo. Cartas que demoravam. Demoravam muito.
A coruja reluzente anuncia que ser passado é destino do mundo. Muitas dessas mulheres já se foram. Como as que foram testemunhas de quando a guerra rolava solta na Europa. Quando eram crianças nos anos que Virginia Woolf lançava seus romances modernos. O século XX, tão modernoso. O século XXI, tão assustador. Se tivessem ficado, talvez não entendessem. Um dia a chuva rala cai mansa sobre inúmeras lápides. Alguém um dia escreverá sobre nossos reflexos nos espelhos.
Me emocionei lendo o texto. Lembrei dos tempos da minha família, lá na roça. Parabéns, Munique.
ResponderExcluirObrigada pela leitura e pelo apoio! Abraços!
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